A gente demora demais para começar a se escolher de verdade. Às vezes leva anos, décadas, quase uma vida inteira. E o pior é que fazemos isso por medo da reprovação, por ficar esperando alguém voltar pra casa antes de nós finalmente voltarmos pra nós mesmos. Pode ser o pai, a mãe, um amigo, um ex-namorado, uma ex-esposa… qualquer um que a gente entregou o poder de decidir se merecemos existir.

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Acontece que essa pessoa que você tanto espera não existe. É ilusão pura. Você fica criando versões delas na cabeça, achando que um dia elas vão acordar sendo exatamente o que você precisa. Mas não. Elas são o que são. E ponto final.

Viver essa frustração de bater de frente com a realidade pode parecer frio, duro, até cruel. Mas é exatamente aí que a vida de verdade começa. É quando a criança interior finalmente entende que ninguém vai vir salvar ela. Que se ela não enxugar o próprio choro, não se levantar da dor e do medo, vai continuar gritando infinitamente dentro de você. Porque a mãe é narcisista demais pra ouvir o choro. Porque o pai é ausente e distraído demais pra lembrar que tem um filho. Porque o resto da família é pirada, quebrada, e fica esperando uma solução mágica cair do céu.

Faz parte do jogo sujo da vida. Essas são as famílias reais. Essas são as histórias reais. Essas são as pessoas reais.

Não importa a idade. Não importa se você tem 30, 45, 70 anos ou mais. O que importa é o momento em que você, dentro de si, decide enxugar as lágrimas daquela criança ferida e falar pra ela: “Agora eu cuido de você. Levanta”.

O maior presente que você pode se dar nessa existência é se permitir ser quem você é, sem pedir licença, sem esperar aprovação, sem carregar o peso de ser sombra de ninguém. Porque ninguém precisa ser sua sombra pra você crescer. E a sombra de ninguém vai te proteger do sol que você precisa tomar na cara.

Apenas se escolha.

Aos 30. Aos 45. Aos 70. Não importa quando. O tempo é relativo pra um espírito imortal, mas o corpo é finito. Os dias correm, os anos voam, e a felicidade continua ali, disponível pra quem tiver coragem de ir lá e reivindicar.

Pare de esperar que os outros mudem. Pare de esperar que entendam. Pare de esperar que voltem. Pare de esperar permissão. Escolha-se. E seja, sem medo e sem desculpa, aquilo que você veio pra ser neste mundo.

Edição n.º 1936

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