Outro dia, durante uma conversa sobre sexualidade, uma frase nasceu no meio da discussão e não saiu mais da minha cabeça:

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O orgasmo começa muito antes do ato sexual.

Quanto mais pensei nela, mais percebi que talvez o orgasmo tenha muito menos relação com o corpo do que imaginamos. Ele nasce no diálogo.

E não estou falando apenas de palavras.

Existe um diálogo que acontece no olhar.

Outro no toque.

Outro no carinho.

Outro na forma como uma mão repousa sobre a outra sem exigir nada em troca.

Outro na delicadeza de perceber quando o corpo do outro está dizendo “sim”, “mais devagar” ou simplesmente “não”.

O verdadeiro diálogo sexual não precisa ser verbal. Ele é um diálogo de presença.

Talvez o sexo seja um dos poucos lugares da vida onde conseguimos perceber com clareza uma necessidade que carregamos desde a infância: a necessidade de sermos vistos.

Todo ser humano deseja sentir que existe para alguém.

Quer sentir que sua presença importa.

Que seu prazer importa.

Que seus limites importam.

Que sua vulnerabilidade será acolhida.

O princípio básico de qualquer relação com significado talvez seja muito simples:

Eu vejo você. E eu também me permito ser visto por você.

Quando isso acontece, nasce a intimidade.

Quando isso desaparece, o prazer começa a desaparecer junto.

O orgasmo deixa de ser encontro e passa a ser desempenho.

Deixa de ser troca e vira execução.

Talvez por isso o consentimento seja muito mais profundo do que simplesmente dizer “sim” antes de uma relação.

Consentimento não é um documento assinado no início.

É um diálogo que permanece vivo durante toda a experiência.

Uma relação pode começar consensual e deixar de ser quando uma das pessoas deixa de olhar para a outra.

Quando o desejo de um passa a valer mais do que o conforto do outro.

Quando desaparece a pergunta silenciosa:

“Você continua aqui comigo?”

É curioso perceber que muitas pessoas procuram fora de casa aquilo que, na verdade, não perderam no sexo.

Perderam na presença.

Na admiração.

Na conversa.

No abraço sem pressa.

No beijo que não tinha objetivo.

Na curiosidade genuína de perguntar:

“Como você está?”

Até relações profissionais que envolvem sexo revelam algo interessante sobre a condição humana.

Quando a troca é clara, ambos sabem qual é o acordo estabelecido.

Já em muitos relacionamentos afetivos, a troca deixa de ser percebida como justa.

Um oferece presença e recebe distração. Um oferece cuidado e recebe pressa. Um oferece escuta e recebe silêncio.

É aí que nasce a sensação de invisibilidade.

E talvez muitas traições não comecem na cama.

Comecem muito antes.

Comecem no dia em que duas pessoas deixam de se contemplar.

No dia em que deixam de admirar uma à outra.

No dia em que deixam de perguntar o que faz o outro prazer, segurança e pertencimento.

Porque o orgasmo não nasce apenas do corpo.

Ele nasce quando duas pessoas conseguem construir um espaço onde ambas se sintam incluídas.

Incluídas nas decisões.

Incluídas no prazer.

Incluídas na liberdade de dizer “sim”.

E, principalmente, na liberdade de dizer “não”.

No fim das contas, talvez a sexualidade apenas revele aquilo que toda relação humana precisa para permanecer viva:

Não é apenas desejo.

Não é apenas técnica.

Não é apenas química.

É presença.

É cuidado.

É contemplação.

É a coragem de olhar para quem está diante de nós e dizer, mesmo sem abrir a boca:

“Eu vejo você.”

E talvez seja justamente nesse instante que o corpo finalmente encontra autorização para fazer aquilo que a alma já vinha tentando dizer desde o início: confiar.

Edição n.º 1940

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