Vando Fortuna: O luto da mãe idealizada
Reflexão de Vando Fortuna sobre o luto de aceitar que a mãe idealizada nunca existiu, e a liberdade que nasce disso.
Existe um tipo de luto sobre o qual quase ninguém fala.
Não acontece quando alguém morre.
Acontece quando uma ilusão morre.
Passei boa parte da minha vida acreditando que um dia minha mãe enxergaria quem eu era. Que em algum momento ela perceberia a dor que me causou, me acolheria e me amaria da forma que toda criança sonha ser amada.
Durante muitos anos eu esperei por esse dia.
Sem perceber, fui criando uma versão dela dentro de mim. Uma mãe possível. Uma mãe futura. Uma mãe que talvez existisse se eu fosse melhor, mais paciente, mais compreensivo ou mais forte.
Até que uma conversa entre nós desmontou tudo.
Não foi uma briga.
Foi uma frase.
Às vezes basta uma única frase para derrubar uma casa inteira construída durante décadas.
Naquele instante, eu compreendi uma verdade que minha criança interior passou a vida inteira tentando evitar: eu não estava esperando minha mãe mudar. Eu estava esperando nascer uma mãe que nunca existiu.
E parece que alguém morreu dentro de mim.
Depois descobri que isso tem nome.
É o luto da mãe idealizada.
Quando somos crianças, nosso cérebro faz qualquer coisa para sobreviver. É insuportável aceitar que justamente quem deveria proteger também possa ferir. Então a criança cria uma saída: ela culpa a si mesma.
“Se eu me comportar melhor…”
“Se eu agradar…”
“Se eu for suficiente…”
Ela continua acreditando que existe amor, porque deixar de acreditar seria insuportável para alguém tão pequeno.
Só que a infância termina.
E, às vezes, a verdade chega décadas depois.
Ela chega quando fazemos terapia.
Quando estudamos.
Quando uma conversa rompe a fantasia.
Quando finalmente conseguimos olhar para nossa história sem o filtro da esperança.
E dói.
Dói porque não estamos apenas revendo nossos pais.
Estamos enterrando a infância que imaginávamos ter vivido.
Choramos pela criança que passou tantos anos tentando conquistar um amor que nunca dependeu dela.
Choramos pelo menino ou pela menina que acreditou ser defeituoso, quando na verdade apenas tentava sobreviver.
Curiosamente, esse luto também traz uma liberdade imensa.
Porque, quando a fantasia morre, nasce a possibilidade de viver a realidade.
E a realidade, por mais dura que seja, é sempre um lugar melhor para construir uma vida do que uma esperança que nunca se realiza.
Talvez amadurecer seja justamente isso.
Parar de esperar que nossos pais se tornem quem precisávamos que eles fossem.
Aceitar quem eles são.
Sem romantizar.
Sem justificar.
Sem carregar uma culpa que nunca foi nossa.
A criança dentro de nós continua existindo.
Mas chega um momento em que ela precisa ouvir uma nova voz.
Não mais a voz da expectativa.
Mas a voz do adulto que finalmente diz:
“Eu vejo a sua dor. Eu acredito em você. E, a partir de agora, quem vai cuidar de você… sou eu.”
Talvez esse seja o verdadeiro início da liberdade.
Porque algumas pessoas enterram seus pais.
Outras precisam enterrar a esperança de que um dia eles seriam diferentes.
E, por mais estranho que pareça, esse também é um ato profundo de amor.
Não por eles.
Mas, finalmente, por si mesmo.
Edição n.º 1939
