Os rabinos, que eram os guias espirituais de Israel, condenam o ódio, a vingança, a ira, o rancor e exigem a reconciliação. Quem errou, deve pedir perdão, e a pessoa ofendida tem o dever de aceitar a reconciliação. Porém, a obrigação de perdoar é restrita à pessoa ofendida do povo de Israel e não é ilimitada. Discutem entre si sobre o número de vezes a ser concedido o perdão à própria mulher ou ao próprio irmão. Há quem defenda uma só vez, outro talvez se possa chegar a duas ou até três vezes, mas todos estão de acordo que na quarta vez tem que haver punição.

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Os apóstolos foram educados ouvindo as pregações dos rabinos e, com certeza, tiveram uma grande influência no modo de pensar e de agir. E, por isso, querem saber da parte do Mestre quantas vezes eles devem perdoar o irmão que errou contra o seu próximo. Imaginam que um pouco mais do que eles foram habituados a acreditar. Talvez sete fosse um número perfeito, até pelo que ele representa. A resposta de Jesus os surpreende, pois, ele vai dizer que é preciso perdoar não sete vezes, mas, setenta vezes sete, ou seja, sempre.

O perdão é uma decisão voluntária de abandonar o rancor, a mágoa e o desejo de vingança contra quem causou uma ofensa. Funciona como uma cura interior que evita que uma ferida se transforme em amargura ou ódio prolongado. Você pode perdoar para se libertar, mesmo que a outra pessoa não peça desculpas ou não queira reconciliação. A cicatriz e a lembrança podem permanecer como parte da história, mas sem a dor da ferida aberta. Perdoar não significa permitir novas agressões ou se colocar em risco novamente; o distanciamento físico ou o fim de uma situação de violência às vezes são necessários. Exige humildade para largar o orgulho e inteligência emocional para proteger a própria paz.

Uma das definições mais lindas e esclarecedoras que eu encontrei sobre o perdão, afirma: perdoar é não dar poder aos pensamentos e aos sentimentos do outro a teu respeito. Quando eu dou poder, o outro me domina, me manipula e de certo modo manda em minha vida. O perdão, pelo contrário, dissolve esse poder e me liberta por dentro. Jesus no alto da cruz nos mostra a sua liberdade interior, mesmo diante de tanta dor, tanto sofrimento e tanta humilhação. Ele não dá poder aos seus inimigos, e os perdoa, exclamando: ‘Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem’. Jesus não guarda mágoa, rancor, ódio e muito menos deseja de vingança, mas exala o perfume do perdão.

Perdoar é uma das artes mais difíceis de ser humano, mas, uma das mais necessárias e fundamentais para viver de modo livre e em paz. Todas as vezes que fermentamos o desejo de dar o troco àquele que nos ofendeu, gastamos energias desnecessárias e vivemos uma guerra interior. Carregamos uma mochila pesada que não nos pertence, que nos desnorteia e cria um mal-estar. Na medida em que decidimos perdoar, tudo isso se dissolve e a vida segue em frente. Quem não perdoa vive sempre do passado, é uma eterna vítima de alguém que o feriu. O perdão, pelo contrário, nos faz olhar sempre em frente. Para termos uma boa saúde mental, perdoemos sempre.

Edição n.º 1949

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