A queda na arrecadação de Araucária fez o prefeito Gustavo Botogoski (PL) pisar no freio e determinar uma série de cortes nas despesas da Prefeitura para os últimos três meses de 2026. Entre as medidas estão o cancelamento de todos os eventos e festividades de fim de ano, redução de até 25% nos grandes contratos mantidos pelo Município, corte nas horas extras, exoneração de cargos em comissão e redução do número de secretarias municipais.

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As decisões foram confirmadas pelo prefeito ao O Popular nesta quarta-feira, 16 de setembro. Ao longo da tarde, Gustavo permaneceu reunido com integrantes do núcleo duro de seu governo justamente para definir como será esse “freio de arrumação” nas contas municipais.

A ordem é simples: gastar menos em outubro, novembro e dezembro para garantir que a Prefeitura encerre 2026 com dinheiro suficiente para honrar todas as despesas assumidas ao longo do exercício.

A tesoura atingirá, inclusive, o calendário de eventos da cidade. Festividades de Natal, Expofest e outras ações que anualmente seriam realizadas neste último trimestre não acontecerão em 2026. A avaliação do governo é de que, diante do atual cenário financeiro, não seria prudente assumir novas despesas com eventos.

Outra frente determinada pelo prefeito é a revisão dos grandes contratos mantidos pelas secretarias municipais. A orientação é para que as pastas promovam adequações que permitam uma redução de até 25% nos valores contratados, dentro das possibilidades previstas pela legislação.

O corte também chegará aos cargos comissionados. A primeira leva deve atingir pelo menos 30 postos, com as exonerações começando ainda nesta semana.

A redução das despesas com horas extras é outra frente que já vem sendo trabalhada pela administração há alguns meses. Segundo o prefeito, o Município conseguiu baixar os gastos mensais com horas extras de aproximadamente R$ 1,2 milhão para R$ 700 mil. A meta estabelecida para o próximo mês é reduzir esse valor para cerca de R$ 400 mil mensais, com orientação para que as secretarias diminuam ainda mais a execução de horas extraordinárias.

O “freio de arrumação” também chegará à própria estrutura administrativa da Prefeitura. Gustavo informou que encaminhará à Câmara Municipal um projeto de lei reestruturando o quadro de secretarias, com a redução de duas pastas. A Secretaria de Políticas Públicas será extinta, enquanto as atuais secretarias de Administração e de Inovação e Tecnologia serão unificadas em uma única estrutura.

Com as mudanças, além de enxugar a máquina administrativa, a Prefeitura pretende reduzir despesas principalmente com cargos gerenciais e comissionados, incluindo postos de secretário e diretor vinculados às estruturas que deixarão de existir.

Conta apertou

A explicação para medidas tão duras está no comportamento das receitas municipais. O dinheiro que vem entrando nos cofres da Prefeitura em 2026 não está acompanhando aquilo que havia sido projetado quando da elaboração do orçamento. E, pior: enquanto algumas das principais receitas caem ou permanecem praticamente estagnadas, as despesas continuam crescendo.

O melhor exemplo disso é o ICMS. Historicamente, as transferências desse imposto respondem por algo em torno de metade de tudo aquilo que abastece os cofres municipais. Isso significa que qualquer soluço nessa receita vira uma baita dor de cabeça para a Prefeitura.

E os números ajudam a entender o tamanho do problema.

Pegando agosto, último mês fechado, como exemplo, Araucária recebeu R$ 53,9 milhões líquidos em ICMS em 2024. No mesmo mês de 2025 foram cerca de R$ 50,2 milhões. Agora, em agosto de 2026, entraram R$ 50,4 milhões.

Embora agosto seja apenas uma fotografia utilizada aqui para exemplificar essa realidade, o comportamento se repete, com variações, quando se coloca lado a lado boa parte dos demais meses dos últimos três anos. No geral, o que se percebe é uma receita que deixou de crescer no ritmo necessário e que, em vários períodos, passou inclusive a apresentar redução.

Setembro segue a mesma toada, embora a comparação ainda seja parcial. Em setembro de 2024, Araucária recebeu R$ 58,4 milhões líquidos em ICMS. Em 2025 foram R$ 61,8 milhões. Neste ano, até esta quarta-feira, 16 de setembro, haviam entrado apenas R$ 28,5 milhões. Ainda restam repasses do imposto até o fechamento do mês.

Em 2024, o Estado transferiu R$ 685,5 milhões líquidos de ICMS para Araucária. Em 2025 foram R$ 671,1 milhões. Para 2026, a própria Secretaria Municipal de Finanças (SMFI) já trabalha com um cenário ainda menor.

E não é só o ICMS que preocupa. Embora nenhum outro tributo isoladamente tenha o mesmo protagonismo nas finanças de Araucária, o aperto também vem sendo sentido em outras receitas que ajudam a abastecer os cofres públicos. Entram nessa conta transferências como FPM e Fundeb, os royalties relacionados ao petróleo e receitas próprias como ISS, IPTU e ITBI. Umas mais, outras menos, essas fontes também ajudam a compor um cenário em que o dinheiro disponível não cresce na mesma proporção das despesas assumidas pelo Município.

A situação fez a Prefeitura recalcular a rota do orçamento deste ano. A previsão inicial era de uma arrecadação próxima de R$ 1,9 bilhão. Agora, a estimativa gira na casa de R$ 1,7 bilhão. São quase R$ 200 milhões a menos do que se imaginava ter disponível.

O IPVA é outro exemplo dessa nova realidade. A redução da alíquota do imposto promovida pelo Governo do Estado diminuiu os valores transferidos aos municípios. Até 16 de setembro deste ano, Araucária havia recebido R$ 31,1 milhões referentes à sua cota do tributo.

Despesas não caem

Mas há um outro lado dessa equação que ajuda a entender por que uma cidade ainda muito rica, com orçamento na casa dos R$ 2 bilhões, encontra tanta dificuldade para simplesmente cortar despesas na mesma velocidade em que suas receitas diminuem.

Araucária construiu ao longo dos anos uma cesta bastante ampla de serviços públicos. E muitos deles geraram despesas permanentes que não podem simplesmente ser desligadas de uma hora para outra.

A principal delas é a folha de pagamento. O Município possui uma estrutura funcional pesada e o custo com pessoal consome algo em torno de metade da receita corrente líquida. Além disso, essa despesa cresce naturalmente ano após ano. Progressões funcionais, triênios, quinquênios e a própria recomposição salarial fazem com que, mesmo quando a receita não aumenta, o gasto com pessoal continue subindo.

O mesmo acontece com contratos de natureza contínua. Coleta de lixo, trabalhadores terceirizados, serviços nas áreas de saúde, educação e assistência social, manutenção do Hospital Municipal e uma série de outras estruturas possuem mão de obra em sua composição. Quando salários, benefícios e insumos são reajustados, o valor desses contratos também precisa acompanhar.

Outra conta importante é o transporte coletivo. Araucária possui tarifa de R$ 1 e integração com Curitiba, sendo boa parte do custo real da passagem bancada pelo próprio Município. É um benefício importante para a população, mas que exige aportes constantes e significativos do caixa municipal.

A previdência dos servidores também pesa. Além da contribuição patronal de 17%, a Prefeitura precisa realizar aportes para ajudar a manter o equilíbrio atuarial do Fundo de Previdência Municipal de Araucária (FPMA), bem como arcar com despesas previdenciárias de servidores vinculadas ao período anterior à estruturação do regime próprio. No conjunto, os desembolsos relacionados a essas obrigações previdenciárias chegam à casa dos R$ 15 milhões mensais.

E ainda tem dinheiro do passado sendo pago no presente. Financiamentos contratados por administrações anteriores junto a bancos e outras instituições de crédito custam atualmente ao Município quase R$ 7 milhões todos os meses.

São compromissos que ajudam a explicar por que reduzir despesas em Araucária não é tão simples quanto pode parecer quando se olha apenas o tamanho de seu orçamento.

Não é só Araucária

Ainda segundo o prefeito, o cenário não estaria restrito a Araucária. Gustavo afirmou ao O Popular que vem conversando com gestores de outros municípios e que relatos semelhantes sobre receitas abaixo do esperado têm sido frequentes.

No caso araucariense, porém, a forte dependência de receitas transferidas torna qualquer oscilação ainda mais sensível. Boa parte do dinheiro que abastece os cofres municipais é arrecadada por outros entes e posteriormente repassada à cidade. A Prefeitura, portanto, possui pouca capacidade de interferir diretamente no comportamento dessas receitas.

É diante desse cenário que o prefeito decidiu antecipar o problema e puxar o freio agora. Com três meses ainda pela frente até o encerramento do exercício, a meta é reduzir despesas, adequar contratos e garantir que 2026 termine com as contas fechadas e os compromissos assumidos devidamente pagos.

Edição n.º 1950

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