Padre André Marmilicz: A história dos dois filhos
O Padre André Marmilicz comenta a parábola dos dois filhos e o que ela revela sobre a fidelidade concreta ao Reino de Deus no dia a dia.
Jesus é um grande contador de histórias, que, tem como objetivo, falar do Reino de Deus e daqueles prediletos do Pai. Através de parábolas, usando imagens conhecidas pelo povo da época, ele vai revelando o verdadeiro rosto de Deus. Ele conta a história de um pai que tinha dois filhos. O Pai, pensam os judeus, certamente representa Deus, mas, quem são os filhos? Na visão deles, Ele tem apenas um filho, Israel, que no Antigo Testamento é chamado frequentemente ‘filho de Deus’. De onde aparece o segundo filho? Quem pode ser? Talvez indique os povos da Arábia, os descendentes de Ismael, o filho de Abraão e da escrava Agar.
Na história descrita por Jesus, o pai mandou os dois filhos trabalhar na sua vinha. O primeiro respondeu logo, com entusiasmo: sim, senhor, vou imediatamente, mas não foi. O primeiro é Israel que ouviu a palavra do Senhor, respondeu ao seu chamado e fez com ele uma aliança. No entanto, foi infiel, e rompeu essa aliança, se afastando do amor de Deus. E mais, não acolheu a boa nova pregada por seu Filho Jesus, colocando-se numa atitude de total fechamento à mensagem por ele anunciada. Disse sim no passado, mas, não aceitou o filho, preferindo ficar apegado às leis e às tradições dos seus antepassados.
O segundo filho disse ‘não’ num primeiro momento, mas, depois se arrependeu e foi trabalhar na vinha do Senhor. Ele representa os pagãos, que disseram ‘não’ por muito tempo à palavra de Deus, mas, que acolheram com muita alegria a boa nova do evangelho. Percebemos Paulo que vai ao encontro dos gentios, que nunca tinham ouvido falar de Jesus, mas, que se convertem e assumem para valer a pessoa de Jesus e a sua mensagem de salvação. Claramente, Jesus veio para o povo de Israel, mas, eles não aceitaram a sua boa nova, preferindo permanecer nas práticas do passado, sem mudança de comportamento. Os pagãos, pelo contrário, disseram ‘sim,’ através das suas atitudes de amor até às ultimas consequências, se converteram e muitos deles, deram até a vida pelo evangelho. Derramaram seu sangue por amor ao Reino de Deus.
O grande diferencial entre esses dois filhos, o povo de Israel e os pagãos, foi o modo como viveram o compromisso assumido. Enquanto os primeiros permaneceram apegados às leis e às tradições do passado, os segundos, ou seja, os pagãos convertidos, deram a vida por amor a Jesus e aos irmãos. Essa é a grande diferença entre os primeiro e o segundo filho. O que quer dizer para nós essa parábola? Poderíamos cair num grande erro: imaginar que nós somos o segundo filho, e, que, portanto, não temos outra coisa a fazer senão alegrar-nos por nossa fidelidade e condenar a arrogância dos judeus. Mas não é bem assim. Não basta ser batizado para considerar-se salvo e melhor do que aqueles que ainda permanecem como pagãos. O amor aos irmãos, como construtores do Reino de Deus, que vai definir o filho que nós somos.
Na Igreja, nas nossas comunidades cristãs, no mundo, sempre há dois filhos: alguns, no Batismo, dizem ‘sim’, mas, depois, na vida concreta transformam o seu ‘sim’ em muitos ‘não’. Por outro lado, há muitas pessoas que nunca disseram um ‘sim’ explícito para Deus, mas na prática de cada dia amam o irmão, se sacrificam pelos outros, executam muitas obras de caridade. Esses, sim, são os verdadeiros filhos de Deus.
Edição n.º 1951
