Carta do Editor: É minha opinião e pronto!
O brasileiro, de uma forma geral, faz questão de defender seu direito de opinar. Mesmo aqueles que volta e meia fazem alusão a tempos ditatoriais como um regime melhor do que o atual apelam para a liberdade de expressão ao fazer tal defesa. Liberdade, aliás, que os regimes ditatoriais restringem e que a democracia deve proteger.
O brasileiro, de uma forma geral, faz questão de defender seu direito de opinar. Mesmo aqueles que volta e meia fazem alusão a tempos ditatoriais como um regime melhor do que o atual apelam para a liberdade de expressão ao fazer tal defesa. Liberdade, aliás, que os regimes ditatoriais restringem e que a democracia deve proteger.
A democracia, como diz a frase celebrizada por Winston Churchill, é a pior forma de governo, à exceção de todas as demais já experimentadas. E é justamente o compromisso democrático com a liberdade que dá espaço às mais variadas opiniões, inclusive àquelas que se apresentam como fundamentadas em fatos, mas não encontram respaldo na realidade.
Essa nossa paixão por dar opinião, por ter o direito de “achar as coisas e pronto”, é legítima, mas não deve nos impedir de cultivar o bom hábito de ouvir o contraditório e manter a mente aberta para aprender coisas novas. Também precisamos reconhecer os limites do que sabemos, ouvir quem conhece o assunto e estar dispostos a rever nossas posições.
Vivemos tempos de instantaneidade das informações. Infelizmente, a rapidez com que os fatos nos chegam nem sempre vem acompanhada da disposição de nos aprofundarmos neles. Entre uma mensagem recebida e uma opinião compartilhada, muitas vezes falta uma pausa para conferir, compreender e refletir.
Acabamos de sair de eleições gerais muito belicosas, com ambos os lados se considerando donos de verdades absolutas. Terminado o pleito, temos um presidente eleito de um campo político e um Congresso com forte presença de outro. Essa composição pode favorecer a fiscalização, o debate e a construção de soluções negociadas. Isso, porém, depende de que os eleitos estejam conscientes da responsabilidade dos cargos que ocuparão e compreendam que divergências políticas não eliminam o compromisso com o interesse público.
Do contrário, seguiremos batendo cabeça, com as pessoas tratando o adversário político do período eleitoral como inimigo mortal, mesmo sem disputa em curso. A eleição acabou. A fiscalização, a cobrança e o direito de discordar continuam. O que precisa terminar é a transformação de toda divergência em guerra eleitoral.
Tal realidade vale também para a vivência política municipal. Não há eleição em curso, mas seguimos com uma ou outra pessoa crente de que a escolha dos ocupantes da Câmara e da Prefeitura acontecerá no próximo domingo. E, como se estivessem num looping político, amanhecem todas as segundas-feiras preparadas para a eleição do domingo seguinte. Uma disputa que só voltará a acontecer no primeiro domingo de outubro de 2028.
Todos temos o direito de gostar ou não dos gestores eleitos, seja o prefeito, o governador ou o presidente. Temos também o direito de desgostar dos vereadores, deputados estaduais, deputados federais ou senadores. Podemos criticar suas decisões, cobrar resultados e defender outros caminhos. A democracia também se fortalece com uma oposição atenta e uma sociedade participativa.
Ter uma opinião, porém, não nos torna donos da verdade nem dispensa a disposição para ouvir. Tampouco a discordância com quem governa deveria se transformar em torcida pelo fracasso da cidade, do estado ou do país. Quando as coisas dão errado, as consequências alcançam a população inteira, independentemente do voto de cada um.
Pense nisso e boa leitura.
Edição n.º 1957
