Passam os anos, mas a discussão em Araucária sempre retorna à saúde. Como um município com alto aporte orçamentário enfrenta gargalos tão severos? A bola da vez é o Hospital Municipal de Araucária (HMA), que terá seu modelo de gestão debatido em audiência pública no dia 11/11/2026. Mas o problema é apenas a administração, ou faltam leitos para nossa população?

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Não existe modelo perfeito: seja via administração direta, Organização Social, fundação ou PPP. O ponto de partida deve ser o diagnóstico real da cidade. O HMA opera com 70 a 80 leitos. Pelos parâmetros do Ministério da Saúde e da OMS (2,0 a 3,0 leitos SUS por mil habitantes), Araucária precisaria de 303 a 454 leitos. Essa desproporção gritante explica nossa crônica dependência da rede metropolitana, obrigando a transferência constante de moradores para hospitais de outras cidades: como o Hospital do Trabalhador, Evangélico Mackenzie, Angelina Caron e Erasto Gaertner.

A conta matemática da urgência simplesmente não fecha: com 15 mil a 18 mil atendimentos mensais na urgência e taxa de internamento de 3% a 5%, o HMA absorve cerca de 400 internações por mês, operando no seu limite absoluto, quando precisaria do dobro.

Qualquer debate sobre modelos de gestão precisa respeitar prioritariamente esses dados. Diante dessa saturação, algumas propostas exigem cautela e profunda reflexão técnica:

  • O risco do engessamento de longo prazo: Contratos de concessão ou parcerias de longa duração podem engessar a gestão municipal por décadas. Se o resultado não for satisfatório, a cidade corre o risco de ficar refém de amarras contratuais e reequilíbrios financeiros custosos.
  • A incoerência da “dupla porta” ou divisão de leitos: Em um hospital que opera com menos de 25% da capacidade de leitos recomendada para os seus próprios munícipes, levantar hipóteses de destinação de vagas para a rede privada ou outros municípios representa uma flagrante contradição assistencial. O SUS de Araucária não possui leitos ociosos para ceder.
  • O contrassenso do investimento público prévio: Segundo dados da própria administração, o município realizou aportes expressivos em reformas e modernização de equipamentos do HMA nos últimos anos. Transferir a exploração desse patrimônio recém-qualificado com dinheiro do contribuinte para a iniciativa privada exige extrema transparência sobre o real retorno social dessa conta.

Em momentos de transição estrutural, temos que ser cuidadosos para que interesses particulares não sufoquem a análise técnica rigorosa. Cabe à população, aos gestores e aos vereadores exercerem uma vigilância atenta para assegurar que a decisão tomada priorize, única e exclusivamente, o atendimento digno e integral ao cidadão de Araucária.

Edição n.º 1957

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