Carta do Editor: Solidariedade não deveria pedir título de eleitor
Na semana passada, este jornal pediu que a disputa eleitoral acabasse no domingo. Encerrada a votação, seria necessário preservar as relações que continuariam existindo na segunda-feira. O resultado chegou, mas algumas manifestações nas redes sociais mostram que ainda há quem tenha dificuldade em aceitar que o direito de escolher também pertence ao outro.
Na semana passada, este jornal pediu que a disputa eleitoral acabasse no domingo. Encerrada a votação, seria necessário preservar as relações que continuariam existindo na segunda-feira. O resultado chegou, mas algumas manifestações nas redes sociais mostram que ainda há quem tenha dificuldade em aceitar que o direito de escolher também pertence ao outro.
Entre as reações à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), chamam a atenção publicações anunciando o fim da colaboração com vaquinhas, rifas, campanhas de arrecadação de alimentos e outras ações sociais. A justificativa, explícita ou insinuada, é que as pessoas beneficiadas teriam escolhido o candidato vencedor e deveriam, agora, procurar nele a solução para suas necessidades. A frustração eleitoral passa, assim, a servir de argumento para uma espécie de punição coletiva.
Cada pessoa tem liberdade para decidir como e quando ajudar. O que merece reflexão é transformar essa decisão em ameaça contra quem supostamente votou diferente. Uma família que precisa de alimentos, um paciente que busca recursos para um tratamento ou uma entidade que depende de doações não deveriam ter de apresentar suas preferências políticas para merecer solidariedade. Quando a ajuda exige concordância eleitoral, cabe perguntar o que, afinal, sustentava aquela disposição de ajudar.
Também existe um equívoco na premissa dessas manifestações. Em Araucária, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 49.196 votos, equivalentes a 55,62% dos válidos. Lula obteve 39.255, ou 44,38%. Esses números mostram as escolhas feitas nas urnas. Não permitem distribuir os eleitores entre ricos e pobres, trabalhadores e dependentes de ajuda, pessoas merecedoras ou não de consideração. Não há fundamento para presumir a renda, a trajetória ou o caráter de alguém a partir do candidato que escolheu.
O mesmo cuidado vale para a leitura do mapa brasileiro. A cor atribuída a um estado representa quem obteve a maioria naquele território, mas não apaga os votos do adversário. Lula venceu em São Paulo, a maior cidade do país, e também no Rio de Janeiro. A vantagem mais ampla conquistada no Nordeste tampouco transforma todos os nordestinos em eleitores de um único candidato. Dentro de cada região existem diferenças que um mapa, sozinho, não explica.
As pessoas votam movidas por convicções, experiências, expectativas e receios. Podem concordar sobre muitos assuntos e discordar na escolha do presidente. Podem ter condições financeiras semelhantes e enxergar caminhos diferentes para o Brasil. Reduzir essa complexidade a um rótulo talvez alivie momentaneamente a frustração de quem perdeu, mas empobrece o debate e alimenta injustiças contra pessoas que apenas exerceram o mesmo direito que todos nós.
Numa cidade como a nossa, esse cuidado tem um significado muito concreto. O eleitor que escolheu outro candidato é também o vizinho, o cliente, o colega de trabalho, o familiar ou a pessoa que participa da mesma campanha beneficente. Continuaremos nos encontrando e precisando uns dos outros. Convém pensar nisso antes de publicar, ainda sob o calor da derrota, uma declaração que poderá ferir relações muito depois de encerrada a eleição.
Reconhecer o resultado não exige abandonar convicções, aderir ao vencedor ou silenciar diante de seus erros. Cabe fiscalizar quem governará e cobrar responsabilidade de quem fará oposição. A participação política continua. O que precisa terminar é a disposição de castigar o próximo por seu voto. A urna recebe uma escolha individual; a democracia exige que saibamos conviver com o resultado coletivo.
Pense nisso e boa leitura.
Edição n.º 1956
