A escassez de mão de obra na construção civil, anteriormente considerada um problema isolado, passou a impactar diretamente a capacidade de execução de projetos. Segundo pesquisas, cerca de 40% das empresas do setor apontam a falta de profissionais como um fator limitante para suas atividades. Os efeitos dessa situação já são perceptíveis na rotina dos canteiros de obras. Mais da metade das empresas foram forçadas a ajustar os prazos de suas obras nos últimos meses, devido à escassez de profissionais qualificados.

O CEO da VKR Empreendimentos, Vanderley Ribeiro da Silva, confirma que a escassez de mão de obra e a consequente rotatividade são, de fato, uma realidade presente no setor da construção civil em todo o país. Ele afirma que esse movimento exige das construtoras uma adaptação constante dos seus processos e da forma como organizam suas operações, e que na VKR não é diferente.

Esse cenário, continua o CEO, também está relacionado a uma característica histórica do setor, que ainda opera, em muitos casos, com processos predominantemente artesanais e com forte dependência da execução individual. Naturalmente, isso torna as obras mais sensíveis à variação de equipes e à disponibilidade de profissionais no mercado, principalmente qualificados.

“Na VKR buscamos atuar de forma estruturada para não ficarmos ‘na mão’ de variáveis desse tipo. Trabalhamos com planejamento de obra mais detalhado, padronização de processos e acompanhamento próximo das equipes, o que ajuda a diminuir a dependência de conhecimento individual e trazer mais estabilidade para a execução, mesmo quando há mudanças no time. Além disso, priorizamos relações de longo prazo com profissionais e parceiros, buscando equipes alinhadas com o nosso padrão construtivo e com a cultura da empresa. Esse cuidado ajuda a reduzir a rotatividade e manter a consistência na qualidade das entregas”, afirma.

Para Vanderley, a carência de mão de obra qualificada no setor da construção civil já é perceptível na rotina dos canteiros. Em muitos casos, segundo aponta, o desafio não está apenas na disponibilidade de profissionais, mas principalmente na qualificação e na consistência da execução ao longo das diferentes etapas da obra, especialmente em atividades que exigem um maior nível de especialização.

“No dia a dia, isso se reflete na necessidade de um acompanhamento mais próximo, de reforço constante dos alinhamentos técnicos e de uma gestão mais ativa das frentes de trabalho. Por outro lado, esse cenário também tem acelerado um movimento importante dentro das empresas, que é a busca por processos mais estruturados, padronização e maior integração entre planejamento e execução, justamente para reduzir esse tipo de impacto e trazer mais previsibilidade para a obra”, assinala.

Quanto ao ajuste nos prazos de entrega das obras devido à falta de profissionais, o CEO da VKR observa que as construtoras estão naturalmente sujeitas às intempéries de mercado, que podem impactar diferentes níveis da operação, desde funções de gestão até atividades mais operacionais. Ele argumenta que por ser uma condição já conhecida, essas variações são consideradas desde o início no planejamento das obras, e ao longo da execução são feitas as adequações necessárias para lidar com eventuais faltas ou insuficiências de equipe.

“Ainda assim, por mais que exista esse controle, podem ocorrer impactos em prazo quando há situações mais críticas ou fora do padrão esperado. O foco, nesses casos, é atuar com planejamento, acompanhamento próximo e capacidade de ajuste, para minimizar os efeitos e manter o maior nível possível de previsibilidade e segurança no cumprimento dos cronogramas”, esclarece.

MUDANÇAS NA EQUIPE

A VKR reforça que trabalha com padronização de processos técnicos, registros e critérios bem definidos, dessa forma, o conhecimento não fica concentrado em um único profissional. Com isso, a rotatividade tende a gerar impactos mais pontuais e imediatos, sem comprometer a continuidade da obra.

“Nas funções de gestão e na definição desses processos, contamos com profissionais e parceiros com baixa rotatividade, o que contribui para manter a consistência das decisões e da condução das obras.

Dessa forma, mesmo quando há mudanças de equipe, a continuidade da execução é preservada, sem a necessidade de reinícios ou retrabalhos mais relevantes. O foco é garantir que a obra siga com consistência, independentemente de variações pontuais no time”, pontua.

Ele ainda reforça que a principal frente de atuação da VKR está na estruturação dos processos e na adoção de tecnologias construtivas que reduzam a dependência da execução individual.

“Buscamos cada vez mais utilizar soluções e métodos construtivos que sejam menos dependentes da intensidade de mão de obra e mais orientados por processo, o que contribui para uma execução mais padronizada, com menor variabilidade e maior controle de qualidade. Além disso, trabalhamos com planejamento mais detalhado, compatibilização de projetos e organização das etapas da obra, reduzindo a necessidade de ajustes em campo e aumentando a previsibilidade da execução. Outro ponto importante é a manutenção de uma base de profissionais e parceiros alinhados com o nosso padrão construtivo, priorizando relações de longo prazo. A estabilidade dessas equipes, especialmente nas funções mais estratégicas, garante continuidade e consistência na condução das obras”, explica.

Segundo Vanderley, a construção civil passa por um momento de transformação importante. Desafios como a disponibilidade de mão de obra e a necessidade de maior eficiência têm levado o setor a evoluir na forma de planejar e executar suas obras. Mais do que uma questão pontual, esse cenário reforça a importância de processos bem estruturados, uso de tecnologia e gestão mais ativa, como forma de garantir qualidade, previsibilidade e segurança ao longo de toda a execução.

“Nesse contexto, empresas que conseguem antecipar essas variáveis e trabalhar com maior controle tendem a entregar resultados mais consistentes, independentemente das oscilações naturais do mercado”, conclui.

EM BUSCA DO MELHOR SALÁRIO

A escassez de mão de obra no setor da construção civil no Brasil atingiu um nível preocupante. Pedreiros e serventes, em busca de melhores salários e condições de trabalho, têm deixado as obras, o que contribui para o envelhecimento da força de trabalho e desmotiva o interesse dos jovens pela profissão.

Foi justamente essa busca por um salário melhor que motivou o pedreiro Adriano Ribeiro, de 41 anos, a trocar de construtora. Ele já atuava como pedreiro no Ceará, no entanto, os valores praticados no mercado cearense eram muito baixos. “Meu irmão já residia aqui e me auxiliou a vir, onde comecei a trabalhar em uma construtora de Araucária em 2018 e lá fiquei até 2025. Atualmente, estou em outra empresa, em Curitiba, porque a remuneração foi mais atrativa”, relata.

Adriano comenta que além da busca por melhores salários, a alta rotatividade da mão de obra na construção civil está relacionada aos jovens que começam a trabalhar e logo abandonam o serviço. “Hoje em dia, percebo que os jovens têm menos interesse em aprender. Isso difi culta a formação de novos profissionais pedreiros e, consequentemente, eleva o custo da mão de obra, especialmente porque muitos profissionais experientes estão se aposentando”, afirma.

Edição n.º 1511.