Muitos concordarão que uma mulher já nasce um pouquinho mãe, por sua capacidade de procriar, e muitos também concordarão que a maior emoção experimentada na vida é o nascimento de um filho. Esse filho sempre nasce lindo, perfeito como nos sonhos.  É uma entrega total, incondicional. Então o lindo bebê nasce com uma deficiência, e como é lidar com essa criança especial?

Maria Madalena de Siqueira da Cruz, 56 anos, é mãe do Rodolpho de Siqueira Cruz, 29 anos, que tem Síndrome de Down. Quando seu bebê nasceu, relata que foi difícil entender porque aquilo aconteceu com ela. “Somos em cinco mulheres na família e não tinha outro caso assim então, por total falta de conhecimento dessa deficiência, ficamos muito triste se desesperados, pois não sabia como agir ou cuidar do Rodolpho, até ele começar a frequentar a escola especial. Aos poucos fomos adquirindo conhecimento de como enfrentar tal barreira, que não julgava ultrapassar, mas depois de um tempo foi ficando mais fácil criar nosso filho, com todo amor, carinho e cuidado. Através da escola especial e dos profissionais aprendemos a respeitar as suas limitações e a superar, hoje sabemos e agradecemos a Deus o lindo presente que nos deu”, diz a mãe emocionada.

Madalena relata momentos incríveis ao lado do filho especial. “Ele nos surpreende a cada dia, pois consegue ser independente, não conseguiu aprender a ler, mas é a única barreira que se apresenta, é muito esperto e consegue fazer algumas coisas, como tomar banho sozinho desde os seus 8 anos, arruma seu almoço, ou seja, esquenta quando chega da escola, pois deixamos tudo preparado, se arruma sozinho para ir à escola, ajuda nos afazeres da casa, interage muito bem com as pessoas, é muito querido por todos, muito carinhoso e ir para a APAE, entidade que frequenta há 15 anos”, conta.

O relacionamento entre mãe e filho é de total respeito e amor, aliás, toda a família e os amigos amam o Rodolpho. “Sua maior dificuldade foi andar, andou com 3 anos, quando estava na Escola Joelma e foi maravilhoso, lá tinha tudo que ele precisava, principalmente na parte de estimulação precoce, com ótimos profissionais e professores. O preconceito era muito grande porque antigamente as pessoas não tinham o conhecimento de hoje, onde é mais fácil falar sobre deficiências e ter tais informações. Tenho mais dois filhos do primeiro casamento, ele tem também outros quatro irmãos do lado do pai, que também gostam muito dele. Depois do nascimento do Rodolpho fiquei 18 anos em casa cuidando dele e fazendo tudo que era preciso para dar a atenção necessária, até que consegui uma vaga na APAE, onde ele poderia ficar em contraturno, assim ficou muito bom, pois não teria que deixá-lo com outras pessoas e não me preocuparia. Rodolpho vai para a APAE todos os dias com a maior alegria, adora as professoras, diretoras, atendentes, amigos e todos lá gostam muito dele também, é sua segunda casa. Hoje ele não fica mais no contraturno porque o pai se aposentou e eles ficam juntos”, comentou Madalena.

Para ela, ser mãe de uma criança especial é refazer planos e se programar para dar o melhor para o seu filho, sem achar que sua vida acabou. O apoio e amor da família são tudo nessa hora. “Minha mensagem é, não queira ser a super mãe, seja somente uma mãe amorosa, respeitando suas limitações, mas não limitando eles, ensinando se possível que precisam ter limites em tudo na vida, e que dizer não também é demonstrar amor, e se preciso for, procurem ajuda para si e seus familiares, porque para cuidar de alguém especial, é preciso se cuidar também”.

Uma mãe (melhor) ainda após a separação

Assumir a tarefa de cuidar do filho sozinha, sem a presença do pai, é a realidade de milhões de brasileiras. “As pessoas nos subestimam como mulheres, profissionais e mães. Eu, como mulher, crio minha filha sozinha e dou conta do recado”, diz Nicolly Shaiane Carneiro, 29 anos, mãe da Ana Beatriz, de 7. Apesar de todas as dificuldades que encara no dia a dia para educar a menina, ela diz que a pior de todas é enfrentar o julgamento daquelas pessoas que não conseguem aceitar uma mãe criando uma criança, sem a presença do pai.  “Eu sempre falo que para comprar roupas, sapatos e comida a gente dá um jeito,

graças a Deus tenho muitas pessoas que me ajudam. A educação é uma das partes mais difíceis, porque eu preciso terceirizar para poder trabalhar. para as pessoas, não importa se a mãe estiver trabalhando duro para dar o melhor para o seu filho, não adianta, quando acontece algo de errado, a culpada é sempre a mãe”, lamenta Nicolly.

Ela lembra dos momentos bons que antecederam o nascimento da filha, e que logo se tornaram um pesadelo. “Namorei o pai da Ana Beatriz por três anos e moramos juntos também por três anos. Quando estávamos há seis anos juntos eu engravidei, ele me acompanhou a gravidez inteira, mas a Ana nasceu, ele me disse que não queria mais ficar comigo. minha filha tinha apenas um mês e meio de vida. Ele foi embora. Quando ela tinha nove meses, reatamos e voltamos a nos separar quando ela estava com quase três anos. Foi definitivo e aprendi a criar minha filha sozinha. Me considero uma super mãe, falo tudo que está ao meu alcance para ver ela bem e feliz”, disse Nicolly.

Mãe solo relata lutas e conquistas

Hoje é muito comum encontrarmos pessoas sem o registro do pai em sua certidão de nascimento. Assim, as mães se tornam a principal provedora da casa, responsáveis por realizar todas as tarefas e pela criação dos filhos. Francielle Pereira Furman, 36 anos, é mãe, profissional e dona de casa. ela diz que há 10 anos conheceu o primeiro amor da sua vida, Fernando, que nasceu em seu coração e lhe mostrou o verdadeiro significado do amor à primeira vista. “Jamais vou esquecer quando o vi pela primeira vez, de tênis branco e jardineirinha azul, abrindo e fechando as mãozinhas, como quem dizia: ‘Mamãe, você chegou, estava te esperando há dois anos, vamos logo para casa!’ Meu coração fica apertado só de lembrar! Quanta emoção! Meu filho! Quanta alegria!”, relembra.

Juntamente com esse misto eufórico de alegria, ansiedade, medo e amor, Francielle recorda que logo surgiram os desafios da adaptação do filho ao novo lar, contudo o amor era tanto, que chegava a transbordar, e na verdade, nada parecia de fato ser tão desafiador assim, comparado com tamanha felicidade proporcionada pela maternidade e suas descobertas. “Falando em descobertas, já menos eufórica, aí sim acredito que me deparei com algo realmente desafiador, o fechamento do diagnóstico do autismo. Neste momento, já mãe solo, eu iniciava uma jornada de batalhas com meu filho. No início, mesmo com o apoio da minha família, que nunca me desamparou, me senti só, fiquei com muito medo, mas eu precisava ser forte, precisava estar firme para ajudar o meu amado filho, ele estava ali, precisando de mim, então iniciamos juntos uma série de exames, busca de laudos, até o início das inúmeras intervenções terapêuticas, remédios, busca pela inclusão, luta contra o bullying, tentativas, erros, acertos, tudo isso sempre com muito amor”, relembra.

E ela prossegue a história, com os olhos marejados de emoção. “O O Fer foi crescendo e muitas conquistas foram ocorrendo ao longo dos anos, assim como as suas limitações também foram ficando cada vez mais evidentes. Sempre desejei um irmão para o Fer, por muitas vezes, como mãe solo e mãe especial, consciente das dificuldades de meu filho, confesso que com o coração apertado em minhas orações perguntava a Deus como seria a vida do Fernando quando eu partisse, quem iria cuidar dele com o mesmo amor de mãe? Como seria a vida dele sem mim? Como seria bom um irmão, alguém que pudesse seguir com ele após minha partida! E não é que Deus ouviu as minhas preces? Adivinha só com qual notícia fui surpreendida quando Fernando estava com seus 8 aninhos? Um irmãozinho estava a caminho! No início rolou aquele ciúme, afinal, além de uma quebra de rotina significativa o reinado de filho único estava prestes a acabar! Quando o Felipe nasceu, eu já conhecia o amor de mãe, eu só não imaginava que esse amor podia ser multiplicado. Felipe nasceu prematuro, foi uma gestação super difícil e um parto complicadíssimo, mas como guerreiro, protegido de Ogun, ele sobreviveu ao parto e desde pequeno, com alegria contagiante e inteligência surpreendente, parceiro, acompanha o irmão nas terapias, compreende e respeita o autismo, mesmo sendo tão pequeno. Costumo dizer que o Felipe foi de fato enviado por Deus, não somente para cuidar, defender e amar o seu irmão, mas porque ele é um ser que emana luz, bondade cuidado e amor com naturalidade e me surpreende a cada dia. Eu posso dizer que amo os meus filhos mais do que tudo, são eles a razão do meu viver. Eles me motivam a ser melhor a cada dia. Sou grata a Deus pela minha vida, tenho orgulho de poder dizer que crio os meus meninos sozinha, sou grata a minha mãe por ser a segunda mãe dos meus filhos e minha inspiração, sou grata a minha família (meus pais, meus tios, meus irmãos, minhas cunhadas) pelo apoio na minha jornada e hoje se me perguntarem qual o presente que desejo de dia das mães, eu digo o seguinte: quero que no futuro meus filhos possam ter absorvido valores que, com esforço os repassei, que possam ser amorosos, fieis com seus companheiros e familiares e que possam ser dignos de amor e felicidade em suas vidas”.

“Fui mãe por acaso!”

O Dia das Mães para T.M.D. tem um significado especial. Aos 29 anos ela lembra do momento em que decidiu adotar os filhos biológicos da ex-companheira: duas meninas, uma de 4 anos e outra de 12 anos, e um menino de 6 anos. “Sempre tive o desejo de ser mãe, é claro que não esperava que fosse tão cedo, mas quando conheci minha ex-companheira e depois soube que ela tinha 3 filhos, não hesitei e trouxe ela e todos eles para morar comigo. Assumi essa responsabilidade, e disse a ela: ‘o que é meu, é teu, e o que é teu, é meu, e isso inclui seus filhos’. Adaptei toda a casa para garantir o conforto das crianças, eu os amei desde o primeiro dia em que os vi. As pessoas me taxavam de doida, diziam que eu não era obrigada a aceitar os filhos, mas eu optei por isso e não me arrependo”, afirma.

T. diz que conviveu com eles durante dois anos, o suficiente para criar um vínculo forte, de família mesmo. “Há cerca de um mês eu e minha companheira nos separamos e ela levou as crianças, a separação tem sido muito dolorosa, tanto para mim quanto para eles”, lamenta.

Ela assegura que jamais se sentiu como madrasta das crianças, procurava agir como se fosse a segunda mãe delas, dava amor, carinho e atenção, nunca com a intenção de substituir a figura paterna ou tirar o papel da própria mãe. “Por mais que sempre eu tenha ajudado em tudo, levei eles para a creche, levei ao médico, troquei fraldas, dei mamadeira, eu sabia exatamente qual era o meu papel na vida deles. Sou como uma mãe, sim, mesmo que de uma maneira diferente, sou mãe das crianças que escolhi para cuidar e amar”.

Texto: Maurenn Bernardo

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