Em 21 de junho de 1970, o Brasil viveu um de seus momentos mais emblemáticos no esporte: a conquista da Copa do Mundo no México, com vitória por 4 a 1 sobre a Itália, na final disputada no Estádio Azteca. A seleção comandada por Mário Jorge Lobo Zagallo entrou para a história não apenas pelo futebol de altíssimo nível, mas também por ter se tornado símbolo de um país que, naquele momento, vivia uma das fases mais duras de sua vida política.

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O time brasileiro reuniu alguns dos maiores nomes do futebol mundial. Pelé, em sua despedida de Copas, foi o grande ícone da campanha. Jairzinho fez história ao marcar gols em todas as partidas do torneio. Gérson organizou o meio-campo com inteligência e precisão, Rivelino encantou com sua técnica e força, enquanto Tostão, Clodoaldo e Carlos Alberto Torres completaram uma equipe que muitos ainda consideram a melhor seleção brasileira de todos os tempos. Na final, o gol de Carlos Alberto, em uma jogada coletiva antológica, sintetizou a excelência daquele grupo e selou o tricampeonato, garantindo ao Brasil a posse definitiva da Taça Jules Rimet.

Mas a festa esportiva não pode ser compreendida fora do contexto político em que ocorreu. Em 1970, o país estava sob a ditadura militar, na gestão do general Emílio Garrastazu Médici, período marcado pelo aprofundamento da repressão, pela censura, pela perseguição a opositores e pela intensificação da violência de Estado. Era o auge dos chamados “anos de chumbo”, quando prisões arbitrárias, tortura e supressão de liberdades conviviam com a propaganda oficial do regime.

Nesse cenário, o tricampeonato foi imediatamente apropriado pelo governo como instrumento de legitimação política. Médici e sua equipe de comunicação souberam explorar a euforia popular em torno da seleção para associar o sucesso esportivo à ideia de um Brasil forte, vencedor e integrado. O futebol, nesse sentido, passou a funcionar como uma poderosa vitrine simbólica do regime, ajudando a construir a imagem de um país harmonioso, justamente quando setores importantes da sociedade sofriam com a repressão ou resistiam a ela.

Essa apropriação também dialogava com o contexto internacional da Guerra Fria. Em um mundo dividido entre blocos ideológicos, o esporte frequentemente era usado como demonstração de prestígio, poder e influência. A vitória brasileira em 1970, embora esportiva em sua origem, ganhou projeção política porque passou a ser lida como prova do suposto êxito nacional promovido pela ditadura. Ao mesmo tempo, essa narrativa escondia o conflito interno: a resistência de estudantes, intelectuais, sindicalistas, militantes e grupos que, inclusive pela luta armada, enfrentavam o regime em nome da redemocratização.

A peça filatélica que ilustra este artigo, emitida pelos Correios, é uma expressão desse momento histórico. O selo traz a inscrição “Brasil, detentor definitivo da Taça Jules Rimet” e celebra o tricampeonato com forte apelo visual patriótico. As cores da bandeira nacional, a imagem de jogadores em movimento e a referência direta ao título funcionam como uma síntese da euforia oficial em torno da conquista. Mais do que uma lembrança esportiva, o selo registra como o triunfo de 1970 foi transformado em símbolo de nacionalismo e propaganda estatal.

Assim, a Copa de 1970 permanece como um marco duplo da história brasileira. De um lado, representa uma das maiores conquistas do futebol mundial, fruto de talento, organização e brilhantismo técnico. De outro, revela como grandes vitórias coletivas podem ser instrumentalizadas politicamente em contextos autoritários. Entre a magia do esporte e a dureza da repressão, o tricampeonato deixou uma marca profunda na memória do país.

Dica importante: Existe uma resenha cinematográfica, disponível no YouTube, que condensa os jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1970 em apenas 27 minutos. Pesquise pelo título: A TRAJETÓRIA DO TRI: A ÚLTIMA COPA DE PELÉ! TODOS OS JOGOS DO BRASIL NA COPA DO MUNDO 1970.

Edição n.º 1940

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