Professor Rafael de Jesus: Entre a fumaça e a memória — o barbaquá volta a respirar em Araucária
Maquete criada por alunos do Colégio Estadual Araucária resgata a história da erva-mate e do barbaquá na formação da cidade.
Maquete criada por alunos do Colégio Estadual Araucária resgata a história da erva-mate e convida a cidade a revisitar um dos capítulos mais marcantes de sua formação.
Em Araucária, há histórias que não moram apenas nos livros: permanecem também na fumaça imaginada, no cheiro antigo da lenha, no rumor das rodas de carroção e no gesto silencioso de quem soube transformar a folha em sustento. Uma dessas histórias reaparece agora em frente ao Arquivo Histórico Archelau de Almeida Torres, onde a maquete de um barbaquá, construída pelos alunos do Terceiro Ano do Ensino Médio do Colégio Estadual Araucária, devolve à cidade a imagem de um passado que ajudou a moldar sua identidade.
A peça, tão pequena no tamanho quanto grande no significado, convida o olhar apressado a desacelerar. Há nela uma casa de madeira, a cancha, o ouriço, a fogueira, o caminho por onde a erva seguia após o sapeco. Tudo parece delicado demais para conter a memória de uma economia inteira. E, no entanto, é justamente ali, nessa miniatura cuidadosa, que repousa a lembrança de um tempo em que a erva-mate era trabalho diário, comércio, técnica e destino.
O barbaquá era o coração de uma etapa decisiva do processo ervateiro. Depois do corte dos ramos, feito pela manhã, e do sapeco, que tostava levemente a erva para evitar a fermentação, a folha seguia para o barbaquá, onde passava pela secagem e pelo cancheamento. A secagem fazia a erva receber o calor vindo de uma fogueira por meio de um duto subterrâneo; no cancheamento, a erva era triturada por força motriz animal. Era esse percurso, árduo e preciso, que transformava a planta em produto comercial.
Em Araucária, essa história foi mais do que episódica. O município teve pelo menos dez barbaquás em operação até a década de 1940, sinal de uma atividade que ocupou por muito tempo a vida local.
Aqui nos tempos de Tindiquera, até 1820, a erva-mate era preparada em rústicos pilões de soque por brancos, negros e indígenas, livres e escravizados. Depois era transportada em lombos de mulas pela arriscada serra do mar até o litoral, onde era trocada por produtos necessários à sobrevivência dos nossos antigos moradores. A erva-mate unia mundos sociais distintos sob o mesmo esforço, enquanto os carregamentos seguiam em tropas de mulas, carroções e, depois, pelo impulso das melhorias viárias e da ferrovia.
O livro de memória da cidade lembra que, entre 1820 e a década de 1870, novas técnicas de beneficiamento e a penetração no mercado platino deram novo fôlego ao comércio ervateiro. Mais tarde, a Estrada da Graciosa e a ferrovia Curitiba-Paranaguá ampliaram a circulação do produto e consolidaram a erva-mate como base de riqueza regional. Foi esse ciclo que ajudou a erguer engenhos, acumular fortunas e abrir caminho para a industrialização do Paraná.
Não é exagero dizer que a erva-mate ajudou a escrever a história do Estado. O próprio brasão oficial do Paraná conserva essa memória em seus ramos: de um lado, o pinheiro; de outro, a erva-mate. Juntos, eles simbolizam uma paisagem, uma economia e uma identidade que não se apagam facilmente. Em Araucária, essa herança ganha agora nova forma na exposição da maquete diante do Arquivo Histórico, como se a cidade, por um instante, parasse para ouvir o que a madeira e a fumaça ainda têm a dizer.
No Museu Tingüi-Cuera, uma pequena parte desse processo permanece viva: a cancha com o ouriço, a peça de baixo da maquete, onde a erva era triturada. É um vestígio que parece modesto, mas guarda grandeza. Porque certas memórias não precisam de muito espaço para existir; precisam apenas de alguém que as reconheça.
E foi isso que os alunos fizeram. Ao construir a maquete, não reproduziram apenas um equipamento antigo. Reacenderam uma lembrança coletiva. Mostraram que a história de Araucária também passou pelos barbaquás, pelas mãos que colheram, sapecaram, secaram e cancheara a erva, e pelas estradas por onde ela seguiu até os engenhos de Curitiba e além.
No fim, a exposição em frente ao Arquivo Histórico parece dizer, em silêncio, que a cidade continua sendo feita de muitas camadas. Sob o presente, há a fumaça do passado. Sob a pressa de hoje, há o ritmo antigo do trabalho. E, entre o pinheiro e a erva-mate do brasão, permanece viva a lembrança de que Araucária também cresceu ao sabor do chimarrão.
Edição n.º 1945
