Professor Rafael de Jesus: Homenagem aos 150 Anos da Antiga Colônia Thomaz Coelho
Em 1876 nasceu na antiga Freguesia do Iguaçu — atual Araucária — a Colônia Thomaz Coelho, marco pioneiro da imigração eslava no sul do Brasil. O Professor Rafael de Jesus resgata a história de sacrifício, fé e transformação cultural dos colonos poloneses que moldaram a região.
Em 1876, sob a égide da Província do Paraná e as diretrizes do então presidente Adolfo Lamenha Lins, nascia na antiga Freguesia do Iguaçu — atual município de Araucária — a Colônia Thomaz Coelho. Batizada em homenagem ao então ministro da agricultura do Império, Tomás José Coelho de Almeida, a colônia estabeleceu-se como um marco pioneiro na epopeia da imigração eslava no sul do Brasil. Celebrar o sesquicentenário (150 anos) desse núcleo colonial é resgatar uma história moldada pelo sacrifício, pela fé inabalável e pela profunda transformação cultural e econômica de uma terra que aprendeu a pulsar no ritmo laborioso de seus colonos.
Promessa da Terra Contra a Opressão
Para compreender a vinda dos pioneiros poloneses, é preciso olhar para as cicatrizes de sua pátria de origem. No final do século XIX, a Polônia não existia como um Estado soberano, tendo seu território retalhado entre os impérios da Rússia, Prússia e Áustria. Sob forte opressão política, campanhas de despolonização forçada e uma asfixiante crise fundiária marcada por minifúndios insuficientes para o sustento familiar, o campesinato polonês viu-se desamparado.
Nesse cenário de pobreza, o projeto do “Linismo” no Paraná funcionou como um farol de esperança. O governo provincial buscava suprir a crise de abastecimento de alimentos gerando um “cinturão verde” ao redor da capital através de pequenas propriedades familiares cultivadas por camponeses europeus. Profundamente religiosos, os poloneses cruzaram o Atlântico enxergando no Paraná a sua “Terra Prometida”. Atraídos pela promessa de um pedaço de chão próprio — onde pudessem plantar trigo, centeio, batata e milho —, os primeiros 739 imigrantes desembarcaram na colônia com o sonho de criar seus filhos com dignidade e manter vivas as suas tradições.
O Batismo de Fogo: Entre o Tifo e a Mata Virgem
A realidade que aguardava os colonos, contudo, exigiu uma tenacidade quase sobre-humana. Conforme eternizado pelo escritor Romão Wachowicz em sua obra prima Homens da Terra, os pioneiros travaram uma verdadeira “batalha sangrenta” contra o sertão. Acomodados inicialmente sob barracas de lona, os imigrantes enfrentaram o isolamento, a escassez de sementes e o ataque implacável de pragas e animais silvestres que dizimavam os brotos que insistiam em nascer.
O maior dos flagelos, no entanto, veio de forma silenciosa: uma devastadora epidemia de tifo alimentada pelas águas paradas dos pântanos e pela falta de condições de higiene. Vidas preciosas foram ceifadas na clareira da mata que servia de cemitério improvisado. Sem médicos, sem remédios e sem o repicar fúnebre dos sinos para velar seus mortos, os sobreviventes agarraram-se à “Mãe-Esperança”. Com as mãos vazias, ergueram-se, empunharam o machado e abriram clareiras a ferro e fogo para rasgar o solo e conquistar o pão de cada dia.
Trabalho, Progresso e Identidade
Superadas as agruras iniciais, a colônia “progrediu a olhos vistos”. O preconceito histórico das elites locais — que viam o trabalho braçal com desdém e de forma depreciativa, herança de séculos de escravidão — foi confrontado pela postura exemplar dos poloneses, descritos nos relatórios oficiais de Lamenha Lins como um povo “notavelmente laborioso” e de índole “morigerada”.
Os 98 lotes iniciais de 1876 expandiram-se para 270 lotes em apenas três anos. Os colonos construíram estradas carroçáveis que conectavam a colônia a Curitiba, facilitando o escoamento de lenha, hortaliças e cereais por meio dos icônicos “Carroções Eslavos”. O centro da vida comunitária pulsava na região da Capela de São Miguel, antigo coração geográfico e espiritual de Thomaz Coelho. Através do sistema de mutirões (ajuda mútua) para a semeadura, trilhagem do trigo e quebradeira do linho, os laços sociais fortaleceram-se. Com o tempo, a convivência harmoniosa quebrou barreiras e promoveu a solidariedade e a integração com os moradores mais antigos da Freguesia do Iguaçu.
O Legado Submerso e a Memória Viva
O avanço da modernidade trouxe transformações drásticas para a fisionomia geográfica da antiga colônia. Nas últimas décadas do século XX, a construção da Represa do Passaúna submergiu uma parcela significativa das terras outrora cultivadas com tanto suor pelos primeiros colonos. Contudo, as águas que cobriram os antigos vales agrícolas não foram capazes de apagar a herança cultural deixada por aquele povo.
Hoje, a imponente Igreja de São Miguel permanece de pé às margens da represa, funcionando como um farol de memória e resistência de um bairro cujo nome homenageia o santo de devoção dos imigrantes. O legado da Colônia Thomaz Coelho sobrevive nos traços da arquitetura, na religiosidade comunitária, na culinária tradicional e nos sobrenomes dos milhares de descendentes araucarienses que carregam com orgulho o DNA daqueles desbravadores.
Celebrar os 150 anos da Colônia Thomaz Coelho vai muito além de uma efeméride de calendário. Trata-se de um tributo à resiliência humana. Como nos ensinaram as pesquisas fundamentais de Ruy Christowam Wachowicz — historiador que dedicou sua vida a decifrar as fontes e fotografias desse povo —, os poloneses moldaram e transformaram a vida política, econômica e cultural da região.
Àquela geração de homens, mulheres e crianças que venceram a fome, o frio, o tifo e o isolamento na mata virgem para semear o futuro de Araucária, gravaram na história uma eterna lição de admiração e profunda gratidão.
Edição n.º 1936
