Vando Fortuna: A função oculta das dívidas
Coluna Riqueza da Alma de Vando Fortuna reflete sobre as dívidas emocionais que carregamos sem perceber — obrigações que nos afastam de nós mesmos e nos impedem de prosperar.
Há alguns dias, durante uma vivência sobre prosperidade, fiz um pedido que parecia simples.
Pedi para as pessoas pegarem uma folha de papel.
De um lado, escrevessem cinco obrigações da semana.
Do outro, cinco presentes que gostariam de dar para si mesmas.
As respostas vieram rápidas para as obrigações.
Pagar contas.
Levar o carro na oficina.
Resolver um problema no trabalho.
Buscar alguém.
Marcar uma consulta.
A segunda lista demorou.
Muito.
Algumas pessoas ficaram olhando para o papel sem saber o que escrever.
Outras começaram a rir de nervoso.
Uma delas me disse:
“Eu nem lembro mais do que eu gosto.”
E aquela frase ficou ecoando dentro de mim.
Porque talvez uma das maiores pobrezas da vida não seja financeira.
Talvez seja esquecer quem somos.
A verdade é que muitos de nós passamos anos vivendo em função das obrigações. Acordamos para resolver problemas, apagar incêndios, atender expectativas, pagar contas emocionais que nem sequer são nossas.
E, sem perceber, vamos abandonando nossos sonhos em parcelas.
Primeiro adiamos uma viagem.
Depois adiamos um curso.
Depois adiamos um relacionamento.
Depois adiamos um projeto.
Até que um dia adiamos a nós mesmos.
É curioso como a vida nos ensina a falar de dívidas financeiras, mas quase nunca nos ensina a falar das dívidas emocionais.
Quantas pessoas carregam até hoje a necessidade de provar algo para o pai?
Quantas vivem tentando receber um reconhecimento da mãe que talvez nunca venha?
Quantas seguem sustentando relacionamentos, trabalhos e situações apenas porque têm medo da culpa que sentirão se forem embora?
Existem dívidas que chegam em boletos.
Outras chegam em forma de silêncio.
Algumas vencem no banco.
Outras vencem dentro da alma.
Durante a conversa daquele encontro, pedi que as pessoas lembrassem dos momentos em que se sentiram mais prósperas.
Curiosamente, quase ninguém falou de dinheiro.
Falaram de liberdade.
De amor.
De paz.
De saúde.
De pertencimento.
Depois pedi que lembrassem dos momentos de maior escassez.
E novamente o dinheiro apareceu apenas como coadjuvante.
A escassez verdadeira tinha outro nome.
Abandono.
Solidão.
Medo.
Vergonha.
Rejeição.
Foi então que compreendi algo que talvez sirva para você que me lê agora.
Nem toda dívida está na conta bancária.
Algumas estão escondidas em histórias que carregamos há décadas.
Em frases que ouvimos quando éramos crianças.
Em medos que nem percebemos que ainda dirigem nossas escolhas.
Talvez prosperar tenha menos relação com acumular e mais relação com devolver.
Devolver culpas que nunca foram nossas.
Devolver expectativas que nunca escolhemos carregar.
Devolver pesos que colocaram sobre nossos ombros quando ainda éramos pequenos demais para recusá-los.
Porque existe um momento da vida em que a pergunta deixa de ser:
“Quanto dinheiro eu preciso ganhar?”
E passa a ser:
“Quanto peso eu ainda preciso parar de carregar?”
Talvez a resposta para a sua prosperidade não esteja apenas na próxima oportunidade.
Talvez esteja na próxima libertação.
E quem sabe a vida não comece exatamente no dia em que você para de pagar dívidas que nunca foram suas.
Edição n.º 1938
