“Se eu não puder ser farol, vou ser cais.”

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A frase está tatuada em Mãe Fabi e talvez seja uma das melhores formas de entender o que ela construiu no Campina da Barra, em Araucária.

Para ela, a Umbanda não é apenas religião. É uma forma de estar no mundo: aprender a olhar para si com mais amor, para o outro com empatia e compreender que ninguém atravessa a vida completamente sozinho.

Mãe Fabi se define como uma mulher guerreira, “pra frente”. Balança, mas não cai. Quando a vida aperta, ela se permite chorar, se abalar, mas depois levanta e continua. É na espiritualidade que encontra coragem para não deixar a peteca cair.

Foi a Umbanda, segundo ela, que transformou sua maneira de enxergar a vida. Ensinou autocuidado, amor-próprio e acolhimento. Por isso, quando alguém chega à porta de sua casa ou de seu terreiro precisando de ajuda, procura oferecer aquilo que consegue: luz, quando pode ser farol; abrigo, quando a pessoa precisa de cais.

Construir seu terreiro no Campina da Barra, porém, não foi simples.

Um dos momentos mais marcantes aconteceu durante a construção do novo espaço. Seu Sete, forma carinhosa como Mãe Fabi chama o Exu guardião e protetor do terreiro, precisou se afastar temporariamente para cumprir um trabalho no plano espiritual.

Vando Fortuna: EXU "Seu Sete", Mãe Fabi e o terreiro no Campina da Barra

Durante quatro meses, os filhos da Casa precisaram seguir a caminhada sem a presença direta de seu guardião. Foi um período de desafio, mas também de aprendizado e avanço espiritual: era hora de trabalhar com mais autonomia, união e responsabilidade.

E eles trabalharam.

Choraram, batalharam e colocaram as mãos na obra. Em apenas quatro meses, levantaram paredes e cobriram a nova estrutura. O piso ainda não estava pronto, mas havia uma casa esperando por seu guardião.

E então puderam dizer:

“Está pronto, Seu Sete. Pode voltar.”

Quando retornou, encontrou não apenas um novo terreiro, mas uma comunidade que havia crescido junto com aquelas paredes.

A construção física, porém, nunca termina. Enquanto a Casa existir, haverá manutenção, trabalho, esforço e pessoas dispostas a ajudar.

Mas aquela comunidade também conheceu a intolerância.

Nos primeiros tempos, quando o terreiro ainda funcionava em uma casa menor, um vizinho perseguia e intimidava Mãe Fabi e seus filhos. Vieram xingamentos, humilhações e até disparos de arma de fogo para o alto.

Eles resistiram.

Até que encontraram uma solução quase improvável: compraram a casa do vizinho.

Não precisaram abandonar o terreiro. Permaneceram.

Hoje, Mãe Fabi conta que a relação com a comunidade é boa. Ainda existe preconceito, e alguns filhos de santo também já enfrentaram intolerância. Mas ela não fala disso como quem pretende recuar.

Fala como quem conhece a palavra resistência.

E talvez seja justamente por isso que o terreiro tenha se tornado tão importante para o Campina da Barra.

Todos os anos, no dia 12 de outubro, a Casa abre suas portas para uma grande celebração dedicada às crianças. Há almoço, café da tarde, bolo, brincadeiras, brinquedos, pintura, corte de cabelo e um dia inteiro de convivência.

No último evento, cerca de 150 famílias participaram da alimentação oferecida pelo terreiro.

Mãe Fabi sonha com algo ainda maior: que o terreiro seja utilizado também fora dos dias de gira, servindo à comunidade para ações de assistência, acolhimento e integração.

Sua compreensão de Umbanda parece caber em uma frase ensinada pela Preta Velha, mentora da Casa:

“Mais acolhimento e menos julgamento.”

Talvez seja essa a mensagem que Mãe Fabi queira deixar para Araucária.

Que ninguém precise esconder sua fé para ser respeitado. Que, antes de perguntar em que uma pessoa acredita, possamos perguntar do que ela precisa.

Às vezes, será de uma orientação.

Às vezes, de um abraço.

Às vezes, de um prato de comida.

Às vezes, apenas de um lugar onde possa chegar sem medo.

No terreiro de Mãe Fabi, no Campina da Barra, ela diz que esse lugar deve continuar existindo: de portas abertas para quem chega com fé, com dúvida, precisando de ajuda ou simplesmente querendo conhecer antes de julgar.

No dia 12 de setembro, a Casa realizará a terceira edição do evento “As Cores da Jurema”, destinado à arrecadação de recursos para a manutenção do terreiro.

Mãe Fabi não esconde que manter uma casa espiritual é difícil. Mas também não esconde o orgulho de continuar.

Ela já caiu, já chorou, já se abalou.

Mas continua.

Porque, para quem aprendeu que nunca está sozinho, desistir talvez nunca tenha sido uma opção.

E se não puder ser farol para alguém, Mãe Fabi já sabe o que quer ser: cais.

Instagram do terreiro: @tumisemc

Edição n.º 1947

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