Quem não sabe de onde vem, não sabe para onde vai!”. Ainda que inconscientemente, costumes e tradições antepassados são mantidos pelas famílias e transmitidos a cada nova geração. Esse costume faz com que as marcas dos antepassados persistam ao longo de gerações.

Em Araucária, os descendentes dos imigrantes poloneses seguem contribuindo ativamente para o desenvolvimento cultural, social e econômico da cidade, ao mesmo tempo em que buscam preservar e fortalecer sua identidade. O presidente da Braspol, André Dreveniak, é um destes descendentes. Possui vasta documentação e conhecimento diversas gerações de sua família.

Os antepassados italianos que chegaram à região foram seus trisavós Michał Drewniak e Anna Drewniak
(nascida em Nievola). Eles vieram de uma pequena vila rural da Polônia, chamada Staszkówka, localizada a cerca de 110 quilômetros a sudeste de Cracóvia, com seus três fi lhos pequenos: Matheusz (bisavô de André), então com apenas 5 anos, seu irmão Jan (João), de 2 anos, e a pequena Maria, com apenas 2 meses de vida.

Naquele período, em 1884, a região fazia parte do Império Austro-Húngaro, contexto marcado por difi culdades econômicas e sociais que levaram muitas famílias a buscar uma nova vida em outros continentes.

“A viagem teve início em 14 de junho de 1884, quando a família embarcou no vapor inglês Rossé, partindo do porto da Antuérpia, na Bélgica, rumo ao Brasil. Após chegarem ao Rio de Janeiro, em 17 de junho, seguiram viagem até o litoral do Paraná, desembarcando em Antonina. De lá, finalmente, foram encaminhados para a Colônia Thomaz Coelho, onde começaram a construir uma nova história, que hoje faz parte da minha identidade e da própria formação cultural da região”, relata.

André é um apaixonado pela história, pela cultura e, especialmente, pela genealogia. Ele acredita que conhecer nossas raízes — de onde viemos e quem foram nossos antepassados — é essencial para compreendermos quem somos hoje. “Cada nome, cada história e cada trajetória carregam lutas, escolhas e sacrifícios que possibilitaram a nossa existência”, declara.

136 anos: Araucarienses descendentes de poloneses contam histórias de suas raízes
André Dreveniak e a esposa Débora.

Ele comenta que é muito triste pensar que alguém possa ser esquecido com o passar do tempo. “Quando refletimos sobre isso, percebemos quantas batalhas nossos antepassados enfrentaram para que estivéssemos aqui hoje. Muitas vezes, sequer lembramos de seus nomes, suas origens ou os desafios
que superaram. Resgatar essas histórias não é apenas um exercício de memória, mas um ato de respeito, reconhecimento e valorização da nossa própria
identidade”.

As razões pelas quais seus antepassados deixaram a Polônia foram muitas e profundamente marcadas pelo contexto histórico da época. A realidade era extremamente difícil. A população vivia basicamente de
uma agricultura de subsistência, sem acesso à educação, sem perspectivas de ascensão social e com pouquíssima esperança de dias melhores. Foi nesse cenário que surgiram os agentes de imigração, estrangeiros que prometiam uma nova vida em terras distantes.

“Eles falavam de um país onde haveria terras férteis, oportunidades para todos, acolhimento aos imigrantes e, principalmente, um futuro para os filhos. O Brasil era apresentado
quase como uma terra prometida, onde ‘chovia pão e mel’, uma terra abençoada por Deus.
Diante de tanta dificuldade e de tamanha promessa, partir tornou-se, para muitas famílias, não apenas uma escolha, mas a única esperança de um recomeço”, relata.

Hoje, André se considera um difusor da cultura polonesa, e faz isso com muito carinho e amor.

Ele declara que essa conexão com a história e com as tradições dos seus antepassados traz um forte sentimento de pertencimento, algo que vai além da memória familiar e se transforma em identidade coletiva.

“Que essa celebração dos 150 anos da imigração polonesa em Araucária não seja apenas um olhar para o passado, mas também um compromisso com o futuro, para que possamos comemorar os próximos 150
anos com ainda mais histórias, mais pertencimento e, acima de
tudo, mais orgulho das nossas raízes”, pontua.

O empresário Mário Gondek também é descendente dos poloneses que aqui chegaram em busca de uma vida mais digna.

136 anos: Araucarienses descendentes de poloneses contam histórias de suas raízes
Mário Gondek e a pesquisadora polonesa Dominika Mierzwa Szymkowiak.

A história dos seus antepassados começa no fi nal de maio de 1901, no Porto de Bremen, na Alemanha, quando o Vapor Mainz aguardava o embarque de 58 passageiros para a América. Tão sonhada, longínqua e misteriosa América. Por que tantos imigrantes foram para a América?

Por que de tantos países europeus? O que os fascinava? O que os levou a correr atrás deste sonho americano?

“Vamos voltar no tempo para tentarmos entender. No dia 13 de maio do ano de 1888, no Brasil ocorreu formalmente a abolição da escravatura. A partir daí, os libertos fugiam para o interior com receio de serem novamente escravizados, resultando na falta de mão de obra para a agricultura e serviços gerais.

Diante disso, o governo brasileiro contratou vários agenciadores de imigração na Europa para recrutarem interessados e qualificados para o trabalho na agricultura, especialmente. O mais famoso e conhecido agenciador chamava-se Frederik Missler, ele tinha um escritório na Rua do Porto na cidade de Bremen, aproximadamente 90 km de Hamburgo, na Alemanha. Por isso o embarque naquele porto”, conta Mário.

Diante de vários passageiros que aguardavam o embarque no Porto de Bremen destacam-se o casal Józef, com 28 anos de idade e Wiktoria Stanischewska Gondek, 24 anos. Com eles, o pequeno filho João, com 9 meses de idade. O destino da família era o Brasil.

Os folhetos e almanaques distribuídos na área agrícola polonesa apresentavam o Brasil como o paraíso, onde nos rios corria mel, as áreas agrícolas eram extensas e havia pão para todos. Isto soava aos poloneses como ‘música de ninar’. Mel, símbolo do alimento que os sustentava, os fortificava e adoça a vida. Produto confiscado pelos países dominantes da Polônia, na época. Pão, além do alimento, símbolo da Eucaristia para os católicos.

Os cultos religiosos estavam proibidos, não era permitido congregar a fé religiosa. Sabemos que até hoje a maioria dos poloneses são cristãos. Liberdade de professar sua fé religiosa era o que mais os animava.

Segundo o empresário, Józef, Wictoria e o pequeno João viviam numa pequena e pobre comunidade no sul da Polônia. Lipinki era a aldeia, município de Gorlice. Vieram sem ter noção da distância e das dificuldades extremas que aqui encontrariam. A viagem durou 35 dias. Desembarcaram no Porto do Rio de Janeiro em 30 de julho de 1901. Após cumprirem a quarentena obrigatória na Hospedagem do Imigrante, foram encaminhados para Araucária, município com grande número de poloneses.

Aqui se estabeleceram no ano de 1901, como agricultores inicialmente. Moravam na localidade chamada Bela Vista. “Meu bisavô foi fundador e presidente da sociedade polonesa Dom Ludowy’ (Casa do Povo). Além de agricultor, era comerciante de toras de pinheiro para a construção de casas e paióis dos imigrantes. Faleceu em um acidente de carroção tracionado por 4 cavalos. Minha bisavó, além de agricultora, era professora de primeiras letras na Sociedade citada. Foi também secretária da referida entidade. Redigia as Atas e aos domingos, após a Santa Missa das 10 horas, na sociedade polonesa,
lia as cartas vindas da Polônia para todos os presentes. Estas cartas eram lidas em público, porque a maioria dos imigrantes poloneses não sabia ler. E como a maioria imigrou do sul da Polônia, os assuntos eram de interesse geral”, conta.

Hoje, o acervo da família Gondek possui muitas cartas recebidas pela bisavó de Mario. Em geral, falavam do clima de inverno rigoroso, da falta de comida e do sofrimento ocasionado pela saudade dos que partiram para a América. O pequeno João, ao chegar em Araucária, faleceu. Vítima da viagem exaustiva e desnutrição. O casal teve 4 filhos aqui no Brasil. O mais velho, senhor Francisco Gondek, era o avô de Mario.

“Ele tinha uma pequena fábrica de extrato de tomate e pimentão. Também tinha um próspero armazém de secos e molhados, que era o supermercado da época.

Naquele tempo era comum a troca de mercadorias (escambo). O agricultor trazia uma lata de banha e levava açúcar, café, farinha, por exemplo. Meu pai foi avicultor e comerciante”. Os avós da família Jękot,
por parte da mãe de Mário, também eram comerciantes. A família Jękot veio de um pequeno município chamado Ryglice, Polônia. Como foi criado neste ambiente comercial, desde pequeno Mário teve inclinação por essa atividade. “Sempre me fascinou o contato com as pessoas”.

A preocupação do empresário pela preservação e divulgação da história da imigração, e principalmente da sua família, começou quando, na primeira viagem à Polônia, no ano de 1998, um professor de Direito da Universidade Jaguelônica de Cracóvia, numa reunião, perguntou: “de que região seus bisavós imigraram para o Brasil?” Ele, envergonhado, levantou-se e disse que não sabia. “Ele, como autêntico polonês, me respondeu (na frente de todo mundo): É uma vergonha, porque você está aqui
passeando, mas eles foram para o Brasil em busca de algo melhor para eles e seus descendentes. E conseguiram. Você está usufruindo deste sacrifício”.

Mário voltou ao Brasil determinado a estudar muito a história da imigração polonesa e da sua família.

“Acredito que fi z um bom progresso. A história de nossas famílias é como uma árvore. Sem raízes, no primeiro temporal, desaba. As raízes são o legado e os ensinamentos que os antepassados nos deixaram”, afirma.

Edição Especial – Aniversário de Araucária: 136 anos.