Dr. Emerson Albertasse: Dr. quero viver para sempre
Ortopedista e traumatologista Dr. Emerson Albertasse discute a busca humana pela longevidade e os limitantes biológicos do envelhecimento.
A busca pela vida eterna é tão (ou mais) antiga quanto a própria escrita. A literatura mais remota da humanidade já girava em torno disso: a Epopeia de Gilgamesh (Mesopotâmia, c. 2100 a.C.) nasceu justamente do pavor da morte. Dos elixires chineses e da alquimia ocidental à mumificação egípcia e a medicina ayurvédica… Em todas as culturas e em todas as épocas, encontramos marcas dessa eterna relutância contra o fim.
Século após século, a tecnologia avançou e a expectativa de vida deu grandes saltos. Nos últimos cem anos, especialmente, a curva de mortalidade despencou graças a conceitos simples de higiene, vacinas, antibióticos e inovações médicas. Hoje, porém, estamos prestes a virar uma chave fundamental: deixar de tratar apenas as doenças da velhice (como Alzheimer, infarto e diabetes) para atacar a causa raiz — o próprio envelhecimento biológico.
Mas, ao superar a fase de tratamento de doenças pontuais, esbarramos em limitantes ainda mais profundos, que recaem quase sempre no nível celular. Destaque para três deles:
Primeiro, a entropia celular: a cada divisão, a célula sofre danos por radiação, radicais livres e erros de cópia — é como se o nosso software epigenético acumulasse falhas contínuas. Segundo, o encurtamento dos telômeros: as células somáticas possuem um limite fixo de divisões porque suas extremidades se desgastam a cada ciclo. Terceiro, o gargalo neurológico: a maioria dos nossos neurônios não se renova. Ao longo de séculos, enfrentaríamos a barreira de uma memória finita operando em um hardware com prazo de validade.
Curiosamente, o segredo mais eficiente para a longevidade continua ao alcance de todos. Ao observar as chamadas ‘Zonas Azuis’ do planeta — regiões com alta concentração de centenários, como Okinawa, no Japão, e Sardenha, na Itália —, percebe-se um padrão claro: movimento natural diário, alimentação simples (rica em grãos e leguminosas), rituais para desacelerar o estresse e laços comunitários profundos.
Enquanto a eternidade não chega, resta-nos mudar o olhar. Afinal, a vida só é grande porque é finita. Saber que a jornada tem um fim é o que dá sabor ao café da manhã, torna o abraço mais apertado e faz do pôr do sol um espetáculo. A morte, vista ao longe, funciona como um farol. O banquete da existência não é inesquecível pela quantidade de pratos, mas porque sabemos que a última taça um dia será servida.
Edição n.º 1943
