Há lugares onde a fé parece escolher o endereço antes mesmo que a gente saiba que está procurando por ele.

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Foi assim que João Marques chegou ao lugar onde hoje está o Ilê Axé Osotokansoso, no distrito de Guajuvira. Mas antes de ser Babalorixá, João já havia conhecido a Umbanda. Adolescente, começou sua caminhada religiosa nessa tradição. O Candomblé veio mais tarde, aos 30 anos, depois de ouvir de antigos Babalorixás, nos búzios, que havia uma cobrança de Oxóssi para que se iniciasse e, depois, abrisse seu próprio Ilê.

Em 2002, fez o santo. E começou a procurar um terreno.

Os preços eram altos e o dinheiro ainda não permitia realizar o projeto. Então João fez um pedido a Oxóssi: que lhe mostrasse um lugar que o Orixá aprovasse.

Certo dia, visitando uma madrinha em Guajuvira, apareceu um homem oferecendo uma chácara nas proximidades.

João foi conhecer.

Sentiu que era ali.

E, segundo ele, Oxóssi abençoou o caminho.

Assim nasceu, em uma região rural de Araucária, o Ilê Axé Osotokansoso — a casa de Oxóssi.

Chegar, porém, não foi simples.

Guajuvira tinha uma comunidade majoritariamente católica e pouco contato com religiões de matriz africana. O preconceito existia. Houve dificuldades. Mas João fala de uma palavra que parece sustentar a própria história do terreiro: resistência.

E há uma distinção que ele faz questão de preservar. João começou na Umbanda, mas seu caminho no Candomblé é de Ketu. Para ele, são religiões diferentes, com histórias, fundamentos e formas de culto próprias.

Na Umbanda, suas referências são Tranca-Ruas das Almas e Zé Pelintra, entidades que o acompanham desde a adolescência. No Candomblé, Oxóssi e Ayrá ocupam lugar central na casa.

Ayrá é a “cumieira” do Ilê, explica João. A justiça está no centro — e vale para todos que pisam aquele chão.

Ser Babalorixá, para ele, é carregar responsabilidade. “Mexer com a cabeça de uma pessoa é mexer em seu destino”, afirma. Por isso, conhecimento não é luxo: é obrigação.

Ao longo dessa caminhada, João diz ter presenciado curas e acontecimentos que considera inexplicáveis, experiências que fortaleceram sua fé em Deus, nos Orixás, nas entidades e nos encantados.

Quem chega pela primeira vez ao Ilê pode esperar respeito, acolhimento e orientação. Mas também um convite: chegar de coração aberto para conhecer aquilo que talvez ainda não compreenda.

E talvez seja justamente essa a mensagem que o Candomblé de Guajuvira entrega a Araucária.

Nas palavras de Yalase, filha de João e integrante da casa, “um terreiro representa muito mais do que um espaço religioso”. É lugar de acolhimento, convivência, aprendizado e fortalecimento de vínculos. É também responsabilidade de preservar cultura, ancestralidade, rituais e ensinamentos transmitidos de geração em geração.

João deseja que Araucária conheça antes de criticar.

Que compreenda que o Candomblé é fé, respeito e ancestralidade.

E que a liberdade religiosa seja vivida na prática: cada pessoa podendo buscar o sagrado à sua maneira, sem precisar diminuir a fé do outro.

No interior de Araucária, onde a estrada encontra a roça e a cidade parece ficar um pouco mais distante, uma casa de Oxóssi fincou suas raízes.

E talvez seja essa a força de Guajuvira: um lugar onde a ancestralidade não apenas é lembrada — ela continua viva. Instagram da casa: @osotokansoso.

Edição n.º 1950

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