Vando Fortuna: Filhos de Pemba — quando a fé aprendeu a pisar no chão
Vando Fortuna conta a história do terreiro Filhos de Pemba e a trajetória de Pai Claudio, desde a primeira gira em uma casa alugada até a construção da sede própria.
Escrever sobre esta casa de axé me arranca uma lágrima no olho esquerdo.
Foi a minha primeira casa de Umbanda. Foi nas mãos de Mãe Alcione, numa cachoeira, que comecei minha trilha. Eu era novo, afoito e meio indisciplinado — como quase todo médium novo —, mas foi ali que aprendi que, antes de querer saber da espiritualidade, era preciso aprender humildade.
Contar o Filhos de Pemba é também tocar um pedaço da minha história. Foi ali que uma parte de mim também começou. Mas esta é, sobretudo, a história de Pai Claudio.
Antes de ser Pai Claudio, Claudio Carlos Lino era o rapaz que puxava caixas de frutas no antigo Ceasa do Portão. Nascido em Santa Mariana, chegou a Curitiba em 1976, um ano depois da neve. Trabalhou e estudou até abrir seu escritório de contabilidade.
A Umbanda entrou em 1995: primeiro cambone, depois médium e dirigente.
Em junho de 2001, começava o Filhos de Pemba, com quinze pessoas, nos fundos alugados de uma casa no Jardim Tropical.
Ainda não havia templo. Havia vontade e trabalho.
Em junho de 2004, durante uma gira, Seu Chico Mineiro, o Boiadeiro de Pai Claudio, anunciou: “Vamos fechar nossa gira e vamos voltar a ter gira novamente em nossa sede própria”.
Poucos meses depois, em 30 de outubro, a promessa virou chão. Literalmente.
A primeira gira na sede própria, na Rua Boles Tonchak, 191, aconteceu sem luz elétrica e no chão batido.
Eram cerca de 25 pessoas. As mesmas que ajudaram a construir aquele terreiro.
É difícil explicar o que significa olhar um lugar sem piso e enxergar um sonho de pé.
Claudio enxergou. Ainda se emociona ao lembrar da alegria nos olhos daquela corrente.
Depois vieram outros desafios. Preconceito, intolerância e, em 2020, a pandemia.
Foram seis meses de portas fechadas.
Seis meses sem saber quando voltariam. A fé continuava, mas a incerteza também.
A sede própria fez diferença: não havia aluguel. Desistir, porém, nunca passou pela cabeça de Claudio.
“A Umbanda é minha fé, e é a minha vida.”
Começou com 95% da corrente de Curitiba; hoje, cerca de 60% é de Araucária.
Ao lado de Claudio está Mãe Alcione, seu braço direito. E há Seu Chico Mineiro. Boiadeiro, firme, direto, sem rodeios.
E deixa uma frase inesperada: “Quem tem medo de cagar, não come.”
É pesada. Mas é genuína. E talvez diga muito sobre a caminhada do terreiro: quem teme enfrentar a vida não experimenta o que ela oferece.
Quem chega pode vir por curiosidade ou dor. Ali, Claudio tenta oferecer equilíbrio.
A Umbanda ensinou que somos falhos e que pedir perdão exige saber perdoar.
E entrega uma frase: “Pra ser Umbandista, não basta girar, tem que participar.”
Não basta fazer um amalá para Orixá se, ao lado, existe alguém precisando de carinho.
Essa é a mensagem do Filhos de Pemba: a Umbanda pede respeito. Mas respeito de verdade. Não da boca para fora. Porque aquela casa começou no chão batido.
Talvez por isso, depois de tantos anos, ainda saiba tão bem onde pisa.
E eu, que cheguei ali afoito, hoje olho para essa história com amor e gratidão.
E com a certeza de que alguns lugares não ficam apenas na nossa memória. Criam raiz dentro da gente.
Festa no Axé dos Espíritos Boiadeiros, no dia 24/10, com atendimentos, passes e comidas.
Mais informações pelo Instagram: @tufp.oficial.
Edição n.º 1949
