Dr. Emerson Albertasse: O Peso Silencioso de uma Madrugada
Dr. Emerson Albertasse relata um plantão médico real e usa a experiência como alerta sobre a epidemia silenciosa do suicídio, com dados da OMS sobre mortes por essa causa no mundo e no Brasil.
O relato REAL de um plantão médico e o alerta urgente para uma epidemia que devasta famílias em silêncio.
02h00. Estou exausto. O plantão começou às cinco da manhã anterior e o Pronto Atendimento finalmente parecia dar uma trégua. No fundo da mente, a esperança de descansar uma hora antes de passar o turno, às sete, e ir para casa.
Até que o telefone tocou: “Doutor, corre aqui urgente!”
02h05. Corro até o quarto 103. A cena que me espera é digna de um filme de terror: o paciente está pendurado pelo pescoço no chuveiro. Retiramo-lo de lá e o levamos ao leito. O peito ainda se move. Mas, segundos depois, o monitor vira uma linha reta. O coração para.
Começam as manobras de ressuscitação. Compressões, medicações, ordens em voz alta, o suor frio. O pulso retorna, mas para novamente. Foram três paradas cardiorrespiratórias seguidas. O quarto 103 vira um campo de batalha contra o tempo. E então, o silêncio. Perdemos.
06h00. O sol surge na janela, mas não há tempo para o luto. A fila do Pronto Socorro transborda; há pacientes esperando há mais de quatro horas. Engulo a dor e volto aos atendimentos. Às sete, o colega chega, a quatro mãos, contemos o caos.
09h00. Volto à enfermaria para encarar a burocracia da tragédia e preencher a declaração de óbito.
11h00. A família chega. Sou chamado para dar a notícia a rostos apreensivos que se desfazem em pedaços. Um homem de 35 anos deixa três filhos pequenos e a esposa devastada. Na conversa, os fragmentos do colapso: desempregado há um ano, pegou a moto do cunhado para fazer bicos, sofreu um acidente e quebrou a perna. Sem histórico de depressão. Apenas o acúmulo esmagador do desespero silencioso.
13h00. Deixo o hospital. O cansaço deu lugar a um hiperalerta doloroso. Saio dali carregando marcas na memória que jamais me abandonarão.
Da Dor Individual ao Alerta Coletivo
Essa história real não é um caso isolado, mas o retrato de uma epidemia silenciosa. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1 em cada 100 mortes no mundo é por suicídio — a terceira maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. No Brasil, são cerca de 15 mil vidas perdidas por ano.
O ato extremo é fruto de uma combinação complexa de fatores:
• Psicológicos: transtornos mentais como depressão, ansiedade e abuso de substâncias.
• Sociais: desemprego, crises financeiras, isolamento e traumas.
• Biológicos: histórico pessoal e doenças crônicas.
O caso desse jovem mostra que a dor nem sempre avisa ou se encaixa em diagnósticos óbvios. A prevenção não é papel exclusivo dos médicos, mas de toda a sociedade.
Se notar alguém ao seu redor demonstrando esgotamento, isolamento ou desesperança: acolha sem julgar, não subestime os sinais e incentive a busca por apoio profissional.
Edição n.º 1949
