Professor Rafael de Jesus: A Farsa das Galinhas Verdes
Coluna do Professor Rafael de Jesus sobre a memória do integralismo brasileiro e sua relação com o autoritarismo contemporâneo.
Um famoso filósofo alemão costumava refletir que a história se repete: “a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Poucas vezes essa formulação pareceu tão evidente quanto nos dias de hoje.
Conhecidos como Camisas Verdes, Galinhas Verdes ou integralistas, os fascistas brasileiros fizeram — e continuam fazendo — parte da história política do país. Ora de maneira velada, ora de forma explícita, seus discursos e símbolos reaparecem em diferentes momentos, adaptados às circunstâncias, mas preservando elementos fundamentais de sua matriz autoritária: o culto ao líder, o nacionalismo exacerbado, o militarismo, a intolerância política, a perseguição aos adversários e a promessa de uma ordem social fundada na obediência.
O fenômeno se inscreve naquilo que o saudoso intelectual italiano Umberto Eco definiu como “fascismo eterno”: uma disposição política que pode assumir diferentes nomes, linguagens e aparências, mas que retorna sempre que encontra terreno fértil para explorar o medo, o ressentimento e a frustração social. Como escreveu o dramaturgo Bertolt Brecht, “a cadela do fascismo está sempre no cio”. A imagem permanece atual porque o fascismo, embora historicamente situado, nunca desaparece por completo. Ele permanece à espreita, aguardando crises, oportunidades e novos intérpretes.
No Brasil, os integralistas cultivaram uma estética verde-oliva, uniformes, rituais de disciplina e uma retórica de exaltação nacional. Seu principal líder foi o jornalista Plínio Salgado, fundador da Ação Integralista Brasileira. O movimento buscava apresentar-se como uma alternativa nacional e espiritualista tanto ao comunismo quanto ao liberalismo, mas sustentava uma visão profundamente autoritária da sociedade e do Estado. Seus militantes marchavam, organizavam cerimônias públicas e adotavam símbolos e gestos que evocavam os movimentos fascistas europeus da época.
A alcunha “Galinhas Verdes”, empregada por detratores do integralismo, procurava ridicularizar a aparência militarizada de seus membros. A ironia, contudo, não deve ocultar a gravidade do fenômeno. Por trás da caricatura havia uma organização política de massas, com presença em diversas regiões do país, capaz de mobilizar milhares de pessoas e disputar ativamente os rumos da República. Plínio Salgado ainda possui devotos espalhados pelo Brasil, especialmente na região Sul, onde determinados setores continuam cultivando sua memória e reabilitando suas ideias.
No Paraná, durante a década de 1930, a admiração por Adolf Hitler e Benito Mussolini encontrou espaço entre parcelas da sociedade. O integralismo ampliou suas fileiras e passou a disputar corações e mentes por meio de uma combinação de propaganda, nacionalismo, anticomunismo e culto à autoridade. Nas terras dos pinheirais, essa herança não desapareceu inteiramente. Ainda hoje é possível identificar simpatizantes de suas referências em ambientes políticos e sociais, inclusive entre candidatos a cargos legislativos estaduais e federais.
Isso não significa uma repetição mecânica do passado. O fascismo contemporâneo raramente se apresenta com a mesma indumentária, os mesmos símbolos ou a mesma linguagem dos anos 1930. Ele se adapta. Troca o uniforme pela comunicação digital, a marcha pela mobilização virtual, o discurso abertamente ditatorial por slogans sobre “liberdade”, “ordem” e “defesa da família”. Em vez de declarar abertamente seu desprezo pela democracia, muitas vezes procura instrumentalizar suas instituições para corroê-las por dentro.
A ascensão contemporânea da extrema-direita também conta com redes internacionais de influência, financiamento, propaganda e circulação de estratégias políticas. Figuras como Steve Bannon, Donald Trump e Elon Musk, cada qual a seu modo e em contextos distintos, contribuíram para ampliar o alcance de discursos nacionalistas, conspiratórios, xenófobos e hostis às instituições democráticas. Essas conexões não significam que todos esses atores sejam idênticos entre si, mas revelam a existência de um ecossistema político no qual ressentimentos sociais são convertidos em mobilização eleitoral.
Ao longo do século XX, os princípios autoritários associados ao fascismo encontraram expressões diversas: em Mussolini, na Itália; em Hitler, na Alemanha nazista; e, na Península Ibérica, em regimes como os de Salazar, em Portugal, e Franco, na Espanha.
A derrota militar do fascismo em 1945 não eliminou suas ideias. Elas sobreviveram em organizações clandestinas, partidos extremistas, movimentos nacionalistas e discursos públicos que foram sendo remodelados de acordo com cada conjuntura. Atualmente, seu avanço pode ser observado no crescimento eleitoral e na normalização de forças como a AfD, na Alemanha, o Vox, na Espanha, e o Chega, em Portugal. Em diferentes graus, esses movimentos exploram o medo da imigração, o descrédito das instituições, a crise de representação política e a nostalgia de uma suposta ordem perdida.
O perigo reside justamente na banalização. Quando símbolos autoritários são tratados como simples excentricidades; quando discursos de ódio são apresentados como “opiniões controversas”; quando a violência política é relativizada; quando a mentira sistemática é convertida em método de mobilização, a democracia começa a perder seus anticorpos. O fascismo não precisa chegar anunciando sua natureza. Muitas vezes, apresenta-se como indignação, patriotismo, moralidade ou rebeldia contra o sistema.
Edição n.º 1949
