Professor Rafael de Jesus: O machismo mudou de roupa
A história do machismo no Brasil não é um acidente de percurso, mas uma estrutura de longa duração. Desde o período colonial, marcado pela dinâmica do patriarcado agrário e escravocrata, o corpo e o destino da mulher foram submetidos a lógicas de posse e tutela.
A história do machismo no Brasil não é um acidente de percurso, mas uma estrutura de longa duração. Desde o período colonial, marcado pela dinâmica do patriarcado agrário e escravocrata, o corpo e o destino da mulher foram submetidos a lógicas de posse e tutela.
As conquistas femininas ao longo dos séculos XX e XXI: como o direito ao voto, o acesso massivo à educação superior e a criminalização da violência doméstica: não ocorreram sem enfrentamento; foram vitórias parciais esculpidas com suor, papel e caneta contra uma muralha institucional e cultural de resistência machista, uma muralha feita de sangue e chumbo.
Justamente por isso, a virada de outubro de 2026 impõe uma reflexão incômoda. Após o encerramento das urnas nas Eleições Gerais do Brasil, que movimentaram o país no último dia 4 de outubro, e diante da proliferação de subculturas digitais misóginas, o tecido social brasileiro parece oscilar perigosamente entre a emancipação e o retrocesso. A grande questão que ecoa é se estamos, de fato, nos tornando uma sociedade mais machista, colocando em xeque direitos fundamentais conquistados a duras penas.
O avanço de discursos de ódio contra feministas nas redes sociais e em fóruns virtuais encontra terreno fértil em momentos de tensões políticas e redefinição de papéis sociais. O fenômeno red pill, disfarçado de “autoajuda masculina”, opera na verdade como uma cartilha contemporânea de deslegitimação da autonomia da mulher, resgatando mitos patriarcais sob uma roupagem moderna.
Esse caldo cultural reverbera diretamente nas esferas partidárias. As configurações saídas das urnas revelam as tensionalidades de um parlamento em disputa contínua, onde forças conservadoras muitas vezes buscam paralisar pautas de proteção de gênero. A política institucional, espelho da sociedade, tensiona a balança entre a representatividade feminina e a manutenção de privilégios históricos de poder.
O grito abafado em Araucária: o feminicídio como sintoma extremo
Se no plano macro a misoginia se articula em discursos partidários e algoritmos de internet, na micropolítica das cidades ela assume contornos trágicos e fatais. A realidade do município de Araucária, escancara essa ferida com índices alarmantes de violência extrema e feminicídios que desafiam o poder público e chocam a comunidade local: a exemplo de crimes recentes evidenciados nos registros policiais da cidade e em matérias veiculadas por esse mesmo jornal.
O feminicídio não é um crime passional, como uma determinada cultura jurídica machista vem tentando naturalizar por décadas; é um crime de poder e posse. Em Araucária, o contraste entre o crescimento urbano-industrial e a persistência de mentalidades arcaicas de dominação masculina sobre o corpo feminino demonstra que a modernização econômica não veio acompanhada de uma revolução civilizatória nos afetos e nas relações de gênero.
Historicamente, as conquistas de direitos nunca são lineares; a cada avanço civilizatório, há uma reação proporcional das forças conservadoras. O que presenciamos hoje não é exatamente o surgimento de um novo machismo, mas a mutação agressiva de um patriarcado milenar que se sente ameaçado pela independência financeira, política e social das mulheres, intensificado pela agenda terrível da extrema-direita.
Reconhecer que estamos nos tornando mais machistas, nos obriga a admitir a urgência de políticas públicas estruturantes e de um letramento de gênero que transforme desde os bancos escolares até os tribunais e parlamentos de todo país. Ignorar o peso simbólico das urnas de outubro e a tragédia cotidiana nos municípios é abrir caminho para a erosão definitiva da cidadania feminina no Brasil. Outubro de 2026 entrou para a história do Brasil como um mês triste para a história das mulheres do mundo.
Imagem: Retrato de Nísia Floresta publicado em “Mulheres Ilustres do Brazil”. Precursora do feminismo no Brasil, Nísia estaria estarrecida com os retrocessos dos últimos tempos.
Edição n.º 1953
