Vando Fortuna: Bairro Estação — Exu de mãe para filho e o direito de cultuar os Orixás
Há missões que começam antes do nascimento. A história da CURA: Refúgio das Almas: começou assim: com uma mãe umbandista que partiu em 10 de outubro de 2001 e deixou uma tarefa que o filho só compreenderia décadas depois.
Há missões que começam antes do nascimento. A história da CURA: Refúgio das Almas: começou assim: com uma mãe umbandista que partiu em 10 de outubro de 2001 e deixou uma tarefa que o filho só compreenderia décadas depois.
Vinicius cresceu na família paterna, evangélica. Conheceu a Umbanda aos 19 anos e ficou sete anos em seu primeiro terreiro. Nos últimos três, os guias insistiam: era preciso continuar a missão da mãe. Ele relutava.
Em 2022, Sr. Exu Tatá Caveira: o mesmo que, na infância, era seu amigo imaginário: falou pela primeira vez sobre o sacerdócio. A orientação se repetiu até 2025. Consultas em outras casas confirmaram o mesmo caminho. “Santo de casa não faz milagre”, ele brinca. Foi então que a chave virou: precisava buscar as raízes.
Encontrou os antigos irmãos de santo da mãe, Pai Wilson de Ogum e Mãe Aleh de Oxum, da Casa Espiritual Sete Caminhos. Foi acolhido, preparado e, em quatro meses, o barracão no bairro Estação estava alugado, firmado e assentado. A casa nasceu.
Mas missão espiritual não é caminho fácil. Duas semanas depois da abertura, dos quatro médiuns iniciais, dois se desligaram. Ficaram ele e uma filha de santo, hoje capitã.
Vinicius tocava atabaque, cantava, incorporava, dava consulta. Duvidava da própria capacidade. Pediu ajuda a Dona Maria Farrapo das Almas: precisava de dois médiuns para os passes. Uma semana depois, chegaram exatamente dois filhos experientes. Para ele, foi sinal claro de que a espiritualidade conduzia.
Entre as passagens que mais o emocionam está a de 10 de outubro de 2025: exatamente 24 anos após a morte da mãe. Manifestou-se o Sr. Exu do Lodo, até então desconhecido. Descobriu depois que aquele espírito havia sido mentor dela. Contou histórias, falou da importância de a casa permanecer aberta e tratou Vinicius como legado. “Foi o colo e o acolhimento de que eu sempre senti falta”, diz.
Hoje, aos 28 anos, ele entende que a missão é curar. Mas aprendeu que não se cura ninguém sem se acolher também.
Ser pai de santo não é moldar médiuns à própria imagem. É conduzi-los ao autoconhecimento diante da espiritualidade, da família e da sociedade. Acolhe quem chega desacreditado, com a vida destruída, e vê transformações concretas: consulentes que voltam com o semblante outro e se tornam filhos da casa.
No bairro Estação, em área residencial, a CURA enfrentou um episódio claro de intolerância e convive com olhares de julgamento. Resolveu pelo diálogo e pelo respeito aos horários.
Vinicius aponta uma desigualdade maior: uma cesta básica doada por igreja pode ser celebrada; a mesma cesta, vinda de terreiro, muitas vezes é recebida com desconfiança. Em Araucária, cidade de forte cultura polonesa e pensamento eurocentrista, falta diálogo com as religiões de matriz africana.
Há verba pública para marcha para Jesus; não há movimento equivalente para os Orixás. Ele defende união entre os terreiros para conquistar visibilidade e lugar de fala.
Se daqui a 30 anos uma criança de Araucária perguntar o que o Refúgio das Almas deixou, Vinicius quer que descubra acolhimento: “Foi lá na CURA que eu fui auxiliado, que consegui emprego, que resolvi um problema de saúde”.
A mensagem para a cidade de hoje é direta: umbandistas não existem para fazer o mal. Praticam caridade, buscam a reforma íntima. Desde a colonização, as religiões de matriz africana são demonizadas em nome de Deus. Antes de julgar, conheça. “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32).
Manter as portas abertas da CURA é mais do que conduzir uma casa de Umbanda. É manter viva a história da mãe e transformar herança em refúgio para outras almas. Instagram: @umbandacura.araucaria
Edição n.º 1954
