O aumento expressivo de transtornos mentais entre crianças e jovens tem acendido um alerta vermelho em nossa sociedade. Diante desse cenário, somos empurrados a um debate urgente: onde termina o tratamento médico necessário e onde começa a perigosa medicalização das frustrações e dores do cotidiano?

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Quando falamos sobre o aumento do consumo de substâncias pelos jovens, precisamos dar nome aos bois. Afinal, as “fugas” se apresentam de várias formas: temos a droga lícita vendida na esquina (como o álcool e o cigarro), a droga ilícita (como a maconha e a cocaína), o medicamento tarja preta usado sem prescrição e, finalmente, a automedicação do dia a dia.

Os números que ilustram essa realidade são assustadores. Cerca de 55% dos jovens menores de 18 anos admitem já ter consumido álcool — e, alarmantemente, 33% deles tiveram essa primeira experiência com apenas 13 anos ou menos. No campo das substâncias ilícitas, dados nacionais mostram que o percentual de pessoas que já experimentaram alguma droga na vida saltou de 10,3% para 18,7% na última década.

Mas é quando olhamos para a gaveta de remédios que o cenário se mostra ainda mais silencioso e devastador: se 90% dos brasileiros adultos admitem se automedicar, entre os jovens esse índice sobe para impressionantes 95%.

Que a nossa juventude está adoecendo mentalmente é um fato incontestável. Mas por quê?

Não há como negar que a vida sob a mediação digital e a hiperconexão mudou drasticamente a formação dessa geração. A comparação social infinita nas redes, a vigilância constante do “cancelamento”, a privação crônica de sono e a cobrança implacável por alta performance e sucesso precoce estão cobrando um preço alto demais.

Como o sofrimento dói e a paciência é curta na era do clique, a busca por alívio imediato virou a regra. Orientados por “gurus” de internet e buscas rápidas em ferramentas de Inteligência Artificial, jovens recorrem a estimulantes de performance física e mental para tentar dar conta de uma engrenagem que não para de girar. O corpo e a mente passam a ser tratados como máquinas que precisam de aditivos químicos para funcionar.

Há quase dois mil anos, o filósofo estoico Sêneca escreveu uma frase que parece ter sido digitada hoje de manhã em alguma rede social: “Estar em toda parte é não estar em lugar nenhum. Às pessoas que passam a vida viajando, acontece isto: têm muitas conexões de hospitalidade, mas nenhuma amizade real.”

Substitua a “viagem” pelo navegar infinito do celular, e a “hospitalidade” pelos seguidores virtuais, e teremos o retrato perfeito da solidão moderna.

Precisamos, urgentemente, de um olhar mais atento e acolhedor para essa geração. A tecnologia nos trouxe avanços inegáveis, mas precisamos de sabedoria para colher seus frutos sem despencar no abismo de suas ilusões. Longe das telas e das pílulas fáceis, o esporte, a convivência real e a cultura ainda são as ferramentas mais potentes para devolver aos nossos jovens o direito de simplesmente ser.

Que saibamos ensinar aos nossos jovens que a verdadeira liberdade não está na anestesia que adormece os sentidos, mas na coragem de encarar a vida acordado — sem precisar de muletas químicas para suportar o próprio caminhar.

Edição n.º 1941

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