No domingo, 8 de agosto de 2026, o Operador Nacional do Sistema Elétrico cortou até 12.609 megawatts de geração eólica e solar no Nordeste. Em apenas um dia, o Brasil descartou mais energia do que a capacidade instalada da usina de Belo Monte. Não foi uma falha. Foi o funcionamento normal de um sistema elétrico que produz mais do que consegue absorver.

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Esse excedente tem um nome técnico: curtailment. E nos últimos meses, passou a ter também um destino alternativo. Mineradoras de bitcoin estão a instalar equipamentos em parques solares e eólicos para consumir essa energia no momento exacto em que ela seria cortada. O que antes ia para o lixo começa a gerar bitcoin real.

O BTC está cotado hoje em torno de US$ 64 mil, com o câmbio a R$ 5,10. Cada bloco minerado gera 3,125 BTC para o minerador que o valida, o equivalente a aproximadamente R$ 1,5 milhão. A recompensa não é pequena, e o Brasil tem exactamente o tipo de energia que torna a actividade economicamente viável em escala.

Um problema de sobreoferta que a mineração pode resolver

O Brasil fechou 2023 com 198 gigawatts de capacidade instalada na sua matriz elétrica, com crescimento anual recorde de 10,3 GW. O avanço das energias renováveis é real, mas trouxe um problema que os planificadores não anteciparam completamente: há momentos do dia em que a geração supera a procura e a rede não tem como absorver tudo.

O Brasil desperdiçou cerca de 20% da energia eólica e solar produzida em 2025 por causa desses cortes. O excedente acumulado no Nordeste gerou prejuízo de R$ 6,5 bilhões ao setor em 2025. São gigawatts produzidos, pagos na tarifa de energia de cada brasileiro, e simplesmente descartados porque não há para onde ir.

A mineração de bitcoin resolve exatamente esse problema. Como o O Popular do Paraná já registou ao analisar o crescimento da adesão à energia solar impulsionada pelo custo da luz, o brasileiro está cada vez mais atento à eficiência energética. A mineração de bitcoin é, na sua essência, uma forma de converter energia que seria desperdiçada em valor digital.

O que está a acontecer no Nordeste

A Casa dos Ventos, maior geradora privada de energia renovável do país, prevê o comissionamento de um data center de mineração de criptomoedas acoplado a uma usina própria no Nordeste entre julho e agosto de 2026. A Eletrobras e a Enegix também avançam na região com projetos semelhantes.

O projeto Satoshi, da Renova Energia, é o maior já anunciado no país. Com investimento estimado em US$ 200 milhões e capacidade de 100 megawatts, começa a operar em 2026 na Bahia. No arranjo, a Renova fornece infraestrutura e energia, enquanto um parceiro do setor cripto cuida da operação de mineração. O Nordeste recebeu mais de US$ 320 milhões em projetos de mineração de bitcoin aproveitando exactamente esse excedente de energia renovável.

Um estudo da startup Arthur Inc. em parceria com a Genial Investimentos, publicado pela CNN Brasil, calculou que a monetização do excedente via mineração de bitcoin pode gerar até R$ 300 milhões em receita em 2026 só com minigeradores solares. Os cálculos são conservadores e não incluem os grandes projetos industriais.

O que isso significa para o preço do bitcoin

A mineração é o processo que cria novos BTC e que garante a segurança da rede. Mais mineração não significa mais bitcoin, pois o supply máximo de 21 milhões de unidades não muda. O que muda é onde a mineração acontece e quem controla uma fatia maior da capacidade de validação da rede.

O Brasil a entrar nesse mercado tem implicações para a descentralização geográfica da mineração global, que historicamente ficou concentrada em zonas com energia barata e regulação favorável. Em 2025, estima-se que 62% de toda a energia consumida pela mineração de bitcoin no mundo venha de fontes renováveis, com emissões de carbono do setor a cair 9,5% face ao ano anterior. O Brasil chega a esse mercado no momento em que ele está a tornar-se mais limpo.

O que o Paraná tem a ver com isso

O Paraná tem uma das matrizes eléctricas mais limpas do Brasil, dominada por hidroeléctricas e com crescimento rápido da geração solar distribuída. A Copel, a maior distribuidora de energia do estado, opera numa rede que tem de gerir picos de geração e de procura com cada vez mais variáveis no sistema.

A lógica que está a levar mineradoras ao Nordeste pode eventualmente chegar ao Sul. Onde há excedente de energia renovável e infraestrutura de rede, há espaço para a actividade. O Paraná não é o foco imediato, mas está dentro do mesmo ciclo que está a transformar o setor elétrico brasileiro.

O que o investidor deve saber

Para quem investe em bitcoin no Brasil, o avanço da mineração local tem um significado prático: parte do BTC que é criado todos os dias começa a ser minerado com energia produzida aqui, por empresas brasileiras, em reais.

A cotação do BTC em reais hoje reflete um mercado global que não sabe ainda o tamanho do que o Brasil está a construir no sector. Quando os primeiros projectos de 100 megawatts entrarem em operação plena e os números de produção começarem a aparecer nos dados, essa realidade vai ser mais fácil de ver.

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