A política da Pombagira, do Preto-Velho e do Caboclo não é a de Flávio Bolsonaro nem a de Luiz Inácio Lula da Silva, ainda que os dois presidenciáveis possam, no futuro, tratar de maneiras especiais as políticas que tocam essas entidades. E é importante analisá-las antes do segundo turno.

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Os Pretos-Velhos representam espíritos que, na Umbanda, têm o atributo de mentores espirituais de grau elevado: conselheiros, sábios de palavras curativas.

Mas o que muitos não sabem, ou preferem esquecer, é que eles são Pretos-Velhos.

Leia bem: P-R-E-T-O-S-V-E-L-H-O-S.

Não são Brancos-Velhos. São os descendentes dos povos negros escravizados, e não os homens brancos de “bons costumes”, donos de escravos e de terras da época do Brasil Colônia.

Aquela mesma elite portuguesa que sempre esteve no poder, no domínio dos capitais do Brasil, explorando terras, matando indígenas e transformando pessoas em “coisas” em nome do crescimento do país. Afinal, era o caminho “direito” da época, abençoado pela religião.

Os Pretos-Velhos carregam a sabedoria que só veio depois da morte, depois de muito sangue vermelho derramado sob o chicote dos senhores.

Não tiveram a chance de ver o fim da escala 6×1. Não receberam terras depois de serem “libertados” em 1888. Receberam rua, fome, dívida e analfabetismo.

E adivinhem para onde voltaram?

Para os mesmos senhores, donos de terras e de capitais, os Brancos-Velhos, agora sob o nome de “trabalhadores”, numa escala 7×0, sem descanso remunerado.

O descanso desses Pretos-Velhos só chegou depois da morte.

Assim como o descanso de tantos brasileiros que sobrevivem com um salário mínimo, num país que exige cada vez mais, terceiriza cada vez mais e entrega cada vez menos condições de redistribuição de renda.

Afinal, essas terras nunca foram divididas.

E quem, de alguma forma, descende dos Pretos-Velhos ainda precisa se aquilombar em favelas e periferias para sobreviver.

Dito isso: qual será o partido político dos espíritos Pretos-Velhos?

Analise bem.

Os Caboclos são os espíritos indígenas brasileiros que, na Umbanda, se manifestam como chefes de falange, trazendo a energia do povo das matas para as sessões.

A pergunta que não cala: o que pensam os Caboclos sobre o desmatamento da Amazônia? Sobre a negligência na demarcação e proteção das terras indígenas?

Cultuar Caboclo morto e não respeitar o indígena vivo atende aos interesses de quem?

Não dá para colher as ervas dos Caboclos, receber seus passes e fechar os olhos enquanto queimam as aldeias.

E as Pombagiras… ah, como são políticas essas mulheres pós-túmulo!

Vozes que não tinham sequer o direito ao voto, quanto mais defesa contra as mortes cruéis que sofreram nas mãos dos homens de suas épocas.

Por sinal, até hoje não faltam candidatas a Pombagira: em média, cinco mulheres são mortas por dia no Brasil por feminicídio, segundo o Relatório Anual de Feminicídios do Brasil de 2025, elaborado pela Universidade Estadual de Londrina.

Inclusive Araucária também protagoniza esses crimes.

As Pombagiras representam mulheres ancestrais fortes que aguentaram o peso do machismo e, hoje, no plano espiritual, trazem empoderamento à essência de cada ser para que ele seja livre.

Hétero, gay, travesti, bi… independente de quem seja.

Liberdade de viver com dignidade sem ser morto por existir.

Elas sofreram perseguições, foram queimadas vivas como bruxas por homens, em sua maioria brancos, sem nunca terem tido direito a um tribunal justo ou a uma Lei Maria da Penha.

Hoje orientam vidas a se amarem e a romperem relacionamentos abusivos.

São protetoras, especialmente, do sagrado feminino.

Agora eu pergunto: qual é a política da Pombagira?

Qual bandeira ela defende?

Minha intenção aqui não é definir o seu voto.

É colocar você para pensar.

No passado tentaram impor uma religião única e, com isso, queimaram aldeias, escravizaram povos pretos e violaram mulheres.

Hoje, quando a religião única e o Deus único voltam a surgir como imposição política, e as populações pobres são apontadas como culpadas pelo fracasso econômico do país, qual dívida estamos evitando pagar?

Ou melhor: quem de fato vai pagar essa dívida?

Essa alma ainda se aposenta… ou entra na fila para virar Preto-Velho, Pombagira ou Caboclo?

Vote consciente!

Edição n.º 1953

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