Quando a administração do prefeito Albanor José Ferreira Gomes (PSDB) começou, em 1° de janeiro de 2009, eu já era servidor público municipal há quatro anos. Na época, eu era lotado na Controladoria Geral do Município (CGM) e fui convidado pelo então assessor de Comunicação Social da Prefeitura, Velozo Santos, para trabalhar com ele, já que eu tinha certa experiência com jornalismo, vez que desde 2004 complementava minha renda fazendo uns bicos no jornal O Popular. Aceitei o convite, mas deixei claro que continuaria com minhas atividades fora do horário de expediente. Velozo concordou, mas precisava de “bênção” do secretário de Governo, João Lincoln Ferreira Gomes, para efetivar a minha mudança nos termos que eu solicitei. Lincoln deu o pode e lá fui eu.

Trabalhei na Comunicação por alguns meses. O ambiente era tranquilo. Os companheiros de trabalho eram legais. Mas sempre pairava uma desconfiança sobre minha pessoa, principalmente da parte das secretarias que eu era encarregado de cobrir, vez que o Waldiclei era d’O Popular e poderia estar a serviço do Carlão. O que eles não sabiam, no entanto, era que o Carlão estava defecando e se locomovendo para o que acontecia dentro da Prefeitura. Ele estava era preocupado em estruturar seu jornal de modo que ele fosse uma empresa rentável e sustentável, como de fato é atualmente.

Durante o primeiro mês na Comunicação, volta e meia cruzava com o secretário de Governo, meu chefe, pelo prédio da Prefeitura. Eu chegava cedo, Lincoln também. Ele parecia não gostar de mim, eu estava me lixando pra ele. Nossa relação era estritamente profissional. Entretanto, passado o primeiro mês, comecei a nutrir um respeito sincero pelo irmão do prefeito. Ele era competente no que fazia. Lincoln não brincava em serviço, ele resolvia as coisas. Eu mesmo fui beneficiado pela presteza dele: certa vez, a Secretaria de Recursos Humanos fez um desconto indevido em meu soldo mensal. Fui conversar com o chefe. “Vou resolver, Waldiclei”, disse ele. E resolveu. No mesmo dia, ligou no meu ramal na Comunicação: “Waldiclei, já conversei com a Rose. A diferença você receberá no próximo pagamento, tudo bem?”, disse, no que eu respondi: “Claro, seu Lincoln. Obrigado!”. O ápice de nossa relação aconteceu em meados de maio, quando soube que iria ter que fazer uma nova cirurgia em meu olho direito e o secretário de Governo veio me dar apoio. “Soube que você vai fazer uma cirurgia. Olha, no que a gente puder ajudar, é só avisar”, se prontificou. De novo, disse: “Obrigado, seu Lincoln”.

Infelizmente, entretanto, toda aquela atenção estava com os dias contados. Algumas semanas depois, num sábado, recebi em meu e-mail a cópia de uma decisão que condenava Lincoln a mais de dez anos de cadeia por crimes do colarinho branco. Eu, sinceramente, não queria ter que escrever uma matéria sobre a condenação de Lincoln. Mas eu precisava. A notícia era importante e muito grave. Afinal, onde já se viu um homem público ser sentenciado por gestão fraudulenta? A população precisava ficar sabendo disso. Escrevi a matéria. Colocamos Lincoln na capa de uma edição de terça-feira. Dias depois perdi a gratificação que recebia por fazer às vezes de jornalista na Assessoria de Comunicação. Doeu! Mas é a vida. Profissionalmente, eu merecia aquela FG, politicamente não mais. Na visão deles, eles haviam me estendido a mão e eu havia lhes virado as costas ao escrever a matéria. Não era verdade, vez que quem cometeu o crime não fui eu.

Algumas semanas após este episódio, um vereador pediu a exoneração de Lincoln, vez que ele estava condenado pela Justiça. De novo, escancaramos o fato na capa do jornal. No outro dia, de novo, eu senti o peso da minha decisão. Fui sumariamente transferido da Assessoria de Comunicação Social, que fica no Paço Municipal, no Centro da Cidade, a cinco minutos da minha casa, para o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), um setor da Prefeitura que fica na área rural da cidade, na estrada que liga Araucária a Campo Largo. Obviamente, fiquei indignado com a transferência, já que era lógico que se tratava de uma retaliação. Até os cachorros do CCZ sabem disso. O CCZ precisava de mais veterinários, equipe especializada na contenção e manejo de cães, biólogos, tratadores de animais, mas nunca de um auxiliar administrativo. Mas, fazer o quê? Esperneei, acionei o meu sindicato, entramos com uma ação na Justiça contra a decisão (processo – aliás – que está parado na Vara Cível de Araucária), porém tive que ir pro CCZ e estou lá ainda.

Na semana passada, o crime pelo qual Lincoln foi condenado, e que acabou – creio eu – interrompendo precocemente minha permanência na Assessoria de Comunicação, voltou a ocupar o meu tempo. Como muitos de vocês devem ter visto, o irmão do prefeito teve a condenação por gestão fraudulenta mantida pelo Tribunal Regional Federal da 4ª. Região, a segunda instância da Justiça Federal. Fui eu – novamente – quem escreveu a matéria publicada no O Popular. Confesso que cada palavra que digitava daquele texto fazia com que eu relembrasse a minha história com Lincoln. Quando terminei o jornal e o vi impresso, senti orgulho. Não porque o texto era brilhante, afinal ele só relatava o que estava escrito na decisão da Justiça, e sim porque era o que tinha que ser feito. A imprensa existe para isso. Se lá em 2009 eu tivesse feito o que o meu coração mandava, não tinha escrito aquele texto, porque Lincoln havia sido legal comigo durante minha passagem pela Comunicação. Porém, quando escolhemos o jornalismo, o coração, as amizades, os favores pessoais muitas vezes têm que ficar de lado em benefício da verdade. Foi o que fiz e sou feliz por isso. Bem, hoje é domingo (20 de março), já passam das 23h e preciso ir dormir. Afinal, amanhã tenho que acordar cedo e pegar a estrada pra ir pro CCZ.

Amigos leitores, comentem. Até semana que vem.

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