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Chuva

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É domingo – mas está chovendo. Não posso sair para brincar na rua e também não tenho nenhuma ideia de brincadeira dentro de casa. Vou até a janela e fico olhando para a chuva: talvez para saber se ela vai embora logo. Tenho seis anos – o tempo ainda não significa nada.

Não estou triste. Estou apenas olhando para a chuva. Em todos os anos posteriores esse gesto se repetiu: há na chuva uma propriedade ímpar, uma atração específica, algo sem nome e talvez ancestral. É, talvez, a primeira vez que percebo esse efeito que a chuva exerce sobre mim.

Meu pai estranha o silêncio. Aos seis anos eu não devia estar quieto olhando pela janela. Seria menos alarmante estar quebrando algum objeto ou quase me machucando com algum item potencialmente perigoso da cozinha. Ele se aproxima de mim e pergunta o que aconteceu.

Nada aconteceu. Digo que nada aconteceu, mas ele insiste. Por que você está quieto?

Se ele estranha meu silêncio é porque devo ter uma resposta. As pessoas ficam quietas sempre por alguma razão. Qual era o meu motivo? Que tipo de gravidade poderia ter me ocorrido para que eu silenciasse?

Por alguma razão digo que queria tomar um chocolate.

É domingo, está chovendo, o filho está triste porque queria um chocolate que não há. O comércio próximo, de bairro, já está fechado. É uma época em que se acredita que desejos não realizados se transformam em lombrigas. Abre-se um guarda-chuva, o filho a tiracolo, chinelo com prego, evitando as poças de água.

No bairro vizinho há um bar aberto. Alguns bêbados velhos ladeiam mesas verdes bonitas, quero olhar as mesas mas tenho medo dos velhos. Meu pai compra o chocolate que eu aleguei motivo da minha quietude.

Tomo o chocolate ainda voltando, na rua. Um pouco de remorso por ter mentido. Ou nem poderia ser classificado como mentira? No momento em que ele me perguntou eu não tinha mesmo vontade nenhuma, mas era verdade que gostava daquele chocolate. Mesmo assim, eu sabia que, estritamente falando, a falta do chocolate não era o motivo de eu estar olhando a chuva. Mas qual era o motivo?

Hoje vi a chuva e lembrei disso. O dia estava quente como aquele domingo há quase 30 anos. Eu, no meio da multidão, onde tudo se dissolve e se camufla, me deixei deixar de ser: apenas um não-eu entre tantas centenas de outros, olhando a chuva.

 

Chuva