Depois da aula de futebol o professor entregava um vale transporte para cada aluno, projeto da prefeitura, éramos em uns oito ou nove moleques que voltavam para casa para o mesmo lado. Havia a opção de pegar o ônibus, mas também podíamos voltar a pé e usar o vale transporte como moeda nos estabelecimentos da região.

Em geral comprávamos sorvete. A banquinha era próxima e o calor era forte. Um dia um dos meninos reuniu o grupo e decidiu contar um segredo: subindo por essa rua aqui, duas ou três quadras adiante, tem uma banquinha em que um senhor vende hamburguer feito com carne humana.
Nojo, ceticismo, curiosidade, decisão: vamos. Quem vai ser o primeiro a comer? Você já comeu? Sim, o gosto até que é parecido com hambúrguer normal. De onde ele tira carne humana? Não sei, pergunta pra ele.

Chegamos à banquinha: tem hamburguer? O senhor sorri um sorriso maléfico, tem sim, aquele menino ali já é meu cliente, né? Um olhar de cumplicidade ao amigo que nos apresentou o segredo. O amigo tem vergonha e orgulho ao mesmo tempo, sou um fora-da-lei.

– Como o senhor consegue essa carne?
– Quando alguém morre as pessoas ficam com preguiça de levar pro cemitério enterrar, aí eu digo que podem jogar o morto aqui no meu quintal, falo que vou enterrar aqui mas faço hamburguer.

Um “oh” de espanto percorre o grupo, que gênio, sempre tá morrendo gente aí mesmo, ele tem uma fonte infinita de recursos para continuar vendendo hambúrgueres especiais eternamente.

Fica pronto meu pedido, preciso provar, a partir da primeira mordida sei que vou passar a pertencer a uma sociedade muito secreta e muito hedonista, lupus est homo homini lupus, somos um novo movimento antropofágico em uma versão mais literal, somos nós, oswalds e tarsilos porque apenas meninos, nenhuma menina seria burra a tal ponto.

Juramos manter o segredo. Uma palavra fora daquele círculo colocará em risco a subsistência do vendedor de hamburguer e nossa segurança. Aos oito anos essa ameaça a nossa segurança é apenas uma tênue ideia, de contornos muito indefinidos, de que algo de ruim acontecerá. Guardaremos o segredo sob qualquer circunstância.

A encenação do tiozinho do hambúrguer dura alguns meses, até que o mais fraco do grupo não aguenta manter a discrição e conta ao professor de futsal, que ri gostosamente da nossa inocência e corta a distribuição do vale transporte, já que não usamos para a finalidade correta.

Sem o vale, sem dinheiro e sem dignidade, abandonamos o vendedor, torcendo secretamente para que seu negócio definhe até o encerramento das atividades, onde já se viu enganar assim seus consumidores?

Não vou mencionar seu nome. O sujeito tinha tanta maestria em dizer besteira e enganar várias pessoas ao mesmo tempo que é possível que acabe virando ministro.

Publicado na edição 1151 – 21/02/2019

CONTEÚDO RECOMENDADO

VEJA TAMBÉM

A ética dos propagadores de fake news

O título desta crônica é provocativo, pois vivemos num tempo onde cada um é induzido a acreditar na sua fake news de preferência através da

Casa Bem Acabada

Iéste negócio da gente se meter a rabequista das véis dando o maior dos problema!! Sobrinha Roseli se achegando com cara cheia de felicidade contanto

Compartilhe