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Pixirum para malhação de arroz em propriedade de Leonardo Rossól, com a máquina de Miguel Dybas, s/d. Foto: Acervo do Arquivo Histórico Archelau de Almeida Torres

O ano é 1919, estamos na área rural de Araucária. A paisagem é formada por colinas, rios, florestas e pequenas plantações (só o que for possível cultivar com enxadas e implementos puxados pelos cavalos). O canto dos pássaros anuncia a aurora, e também se pode ouvir o mugido das vacas no pasto e o som da água movendo o pilão para socar o bijú. A chaleira sobre o fogão de lenha já está quente e é hora de preparar o café e fritar alguns ovos que foram juntados nos ninhos.

Ao longe, o ferreiro bate o ferro dentro de algum galpão de madeira, como se fosse o som de uma araponga vindo de longe. No campo, pisando descalço sobre a terra fofa, o homem comanda o cavalo arando a terra – “ôôôu”. No forno de fora, o cheiro das broas quentes se espalha pelo ar, e a mulher logo vai tirá-las com a pá de madeira. As crianças, que saíram cedo para assistir às aulas na escola rural, voltam para o almoço, correndo descalças e passando pela pequena ponte de madeira sobre o riacho, onde mais tarde o vovô vai passar de carroça para levar os sacos de trigo, colhidos semanas antes, para o moinho de algum velho conhecido, movido à roda d’água, e trazer para casa no final da tarde a farinha. Ao cair da noite, somente as estrelas espiam o curioso barulho dos grilos, cujo compasso por vezes é quebrado pelo pio da coruja, sentada no palanque da cerca. Os lampiões serão apagados, e todos irão dormir em suas camas de colchão de palha, sonhando sobre como germinará a lavoura e rezando para que logo venha a chuva. E quando cantar o galo será o começo de mais um dia na colônia.

A principal marca da vida rural há cem anos atrás era a simplicidade – no modo de falar, de agir, de se alimentar, e até no jeitinho de sentar no caixote à beira do fogão de lenha para contar histórias. Com simplicidade, os agricultores de Araucária construíram suas primeiras casas – com madeira serrada das matas de araucárias -, as primeiras sociedades, as primeiras escolas e as primeiras igrejinhas. Algumas vezes por ano eram realizadas festas nas comunidades, com missa, almoço e matinê. Quem animava as festas eram músicos agricultores, que ganhavam a vida na roça e nas horas de folga tocavam a sanfona. Aliás, dessa mesma forma se davam outras atividades, o artífice e o ferreiro também eram agricultores, assim como o marceneiro, o poceiro e o carpinteiro, que fazia as casas e também os caixões.

Quando chegava a época da colheita era preciso ser rápido, então contava-se com a ajuda mútua dos vizinhos em “pixirum”, espécie de mutirão. O colono deixava a sua lavoura para ajudar o vizinho, e depois o vizinho ajudava na sua colheita. Faziam panelões de comida, e não raro dançavam e tomavam umas pinguinhas. Entre uma safra e outra costumava sair algum casamento, e os vizinhos e parentes passavam a semana toda ajudando na organização – arrumando o paiol, fazendo a cerveja caseira, depenando as galinhas, fazendo cuque e confeccionando flores de papel colorido.

Com o passar dos tempos o trabalho no campo foi se transformando, o cavalo foi substituído pelo trator, o pixirum pela colheitadeira, e quanto mais tempo as máquinas poupam, estranhamente, mais ele escorre pelos dedos e falta tempo para as visitas de outrora, para papear “pitando um paieiro”, ou tomando um café com broa e torresmo.

Mesmo com essa escassez de tempo, aindá há quem separe um tempo para contar histórias de tempos passados, através das lembranças guardadas pelos olhos de quem viu de perto as transformações que chegaram ao campo. Nas casas mais simples, geralmente feitas em madeira, guardam-se as mais ricas memórias. Nos olhos de expressão cansada se reflete a lembrança dos dias vividos, das emoções sentidas, daquilo que não volta mais. Nas mãos enrugadas, nas unhas com resquícios de terra, a prova de uma vida inteira dedicada ao cultivo dos campos, que alimentaram gerações de araucarienses.

Crianças da área rural iam à escola descalças. Escola de Taquarova, 1935. Foto: Acervo do Arquivo Histórico Archelau de Almeida Torres

Texto: Luciane Czelusniak Obrzut Ono

Publicado na edição 1185 – 17/10/2019

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