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Shiro Uchino, hoje com 87 anos de idade, fundador da granja Shisa (hoje pertencente a seus filhos), nasceu em Nagasaki, Japão, em março de 1932. Tinha, portanto, 13 anos quando testemunhou a explosão da bomba atômica em sua cidade natal. Ele e sua família estavam a cerca de 4 quilômetros do local da explosão, colhendo abóboras, quando viu o clarão, e, logo depois, a fumaça se erguendo em forma de cogumelo. Na hora ele não entendeu bem o que estava acontecendo, e só depois ficou sabendo da destruição, dos feridos e dos mortos, alguns conhecidos seus. Foi em consequência das difíceis condições de vida que a Segunda Guerra Mundial causou no Japão, que ele acabou vindo parar no Brasil, aos 23 anos de idade – “sozinho, solteiro, com uma mala”, como disse em entrevista ao Arquivo Histórico.

Na época, o Brasil já recebia levas de imigrantes japoneses desde 1908, direcionados principalmente ao estado de São Paulo, e a Cooperativa Cotia havia iniciado um programa que visava trazer filhos de agricultores japoneses para trabalhar em terras brasileiras após a guerra. Durante os primeiros anos, esses jovens japoneses deveriam trabalhar junto aos cooperados para pagar sua passagem de vinda, o que Shiro fez durante quatro anos trabalhando para um cooperado com produção de ovo e uva, em São Paulo.

Com o passar do tempo, Shiro decidiu buscar novas oportunidades, e, assim, foi parar inicialmente em Joinville, onde montou sua primeira granja e também produzia legumes. Segundo ele, sua maior dificuldade sempre foi a língua, o que fez com que escolhesse trabalhar com galinhas: “galinha não fala, então é fácil”. Era o único japonês entre os alemães em Joinville, e, com a ajudinha de um trator barulhento que possuía, ficou famoso na cidade, e, logo, sua produção ficou maior do que o consumo local. Decidiu, então, vir para Araucária, em 1961, pois aqui já existia a colônia japonesa da Fazendinha e uma filial da Cooperativa Cotia no bairro Estação. Aqui se estabeleceu, se casou e teve seus 4 filhos.

Pelo fato de que estava constantemente estudando por livros vindos mensalmente do Japão, em pouco tempo Shiro, que começou como o menor, passou a ser o maior granjeiro de Araucária, tendo chegado a contar com 80 funcionários e uma produção de 200.000 ovos por dia. O nome da granja veio da sociedade que tinha com Sasaki, por isso o nome Shisa (Shiro-Sasaki), mas essa sociedade não perdurou. Atualmente a Shisa não possui mais produção, apenas revenda de ovos.

Ao voltar ao Japão em visita pela primeira vez após mais de dez anos vivendo no Brasil, Shiro contou que foi com muita saudade, mas logo percebeu que já não se sentia mais pertencente à cultura do outro lado do mundo, e concluiu: “sou brasileiro”. Ao chegar de volta ao Brasil conta que “a primeira coisa que tomei foi caipirinha, tomei caipirinha e senti, eu voltei a Brasil”. Em seu português ainda carregado de sotaque, ele faz questão de frisar: “eu gosto Brasil”, “Brasil não tem guerra”, “eu gosto jeitinho brasileiro”. Segundo ele, visitou o Japão outras vezes, mas não voltaria a viver lá, pois não se adaptaria mais ao sistema japonês, por ser muito rígido, ao contrário do Brasil: “Esse jeitinho brasileiro, quer dizer, é natural, humano tem defeito, este defeito que aceita Brasil, Japão não aceita”. E, ao ser questionado sobre o que mais gosta no Brasil, responde sem pestanejar: “Tudo! Eu gosto Brasil!”

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Texto: Luciane Czelusniak Obrzut Ono

Publicado na edição 1195 – 16/01/2020

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