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Meu primeiro casamento

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Não vou dizer que eu não gostava de Bianca. Eu gostava. E já vinha admirando sua beleza e encanto há algum tempo quando ela tomou uma atitude. Provavelmente ela sabia dos meus sentimentos, os quais provavelmente eram recíprocos, quando me escreveu aquele bilhete.

“Agora estamos casados”, dizia o bilhete. Nem mais, nem menos. Bianca era sucinta. Junto com o bilhete, um anel de plástico, desses que vinham como brinde, colados na maria-mole. Cheguei a testar o anel ali mesmo onde abri o bilhete: atrás da porta da sala de aula, aonde sorrateiramente havia ido para simular o apontar do lápis.

O que abundava a Bianca em concisão faltava a mim em co­nhecimento jurídico: aos seis anos, o bilhete não me foi motivo de alegria. Pelo contrário, fiquei estarrecido e, pela primeira vez na vida, tive a sensação de que era muito novo para alguma coisa.

Bilhete e anel guardados no bolso, o restante da aula não rendeu anotações novas no caderno. Eu só pensava em tudo o que mudaria na minha vida. Será que hoje mesmo eu já não poderei jogar futebol à tarde? Preciso de um emprego? Para ajudar, Bianca sequer fazia menção de olhar em minha direção para sanar tais dúvidas.

Voltei da escola cabisbaixo. De onde eu tiraria uma casa, um carro, filhos? Afinal, ser casado era isso, ter casa, carro, filhos. Era sinônimo de ser adulto – e eu acreditava que a vida adulta chegaria aos poucos e não assim, repentinamente, durante uma aula de artes, por um bilhete me avisando que agora eu era casado com Bianca.

Minha mãe foi a primeira a saber da novidade e, antes de me tranquilizar, fez mais algumas perguntas sobre a nora incidental, muito possivelmente se divertindo enquanto observava minha grande preocupação com tão graves acontecimentos.

Depois, me explicou que não era bem assim que funcionava e que eu poderia ficar tranquilo – o futebol ainda estava liberado. Não eram tão grandes meus compromissos à época.

Não sei por onde Bianca anda hoje em dia. Confesso que, fora o episódio de nosso casamento, lembro pouco de Bianca: lembro que se chamava Bianca e que era bonita, mas puxo pela memória e nada vem: não há Bianca antes ou depois do matrimônio.

Ao longo dos anos passei a me acostumar com a mística tese de que Bianca foi isso: uma mensagem do futuro que apareceu para me dizer que a gente nunca sabe quando a vida adulta chegou ou quando a vida acabou: pode estar ali, na próxima esquina, no próximo bilhete, no próximo ônibus, na próxima capa de jornal.

Sempre que penso em Bianca fico triste e nostálgico. Por isso, Bianca, se você estiver por aí lendo esse jornal, saiba que está tudo acabado entre nós.

 

Publicado na edição 1105 – 22/03/2018

Meu primeiro casamento