Dobro a esquina em direção a minha casa, andando a pé, e vejo, uns 20 metros adiante, vindo em minha direção, um rapaz, aparentando a mesma idade que a minha, porém muito bem vestido, terno e gravata, na mão direita a ponta de uma coleira, na outra ponta da coleira um cachorro gigante, aparentemente muito bem treinado, porque se o cachorro decidir se soltar não encontrará dificuldade.

Assim que me vê o rapaz exclama, “mas olha quem vem lá!”, eu com um olho nele e o outro no cachorro tento reconhecer seu rosto, deve ser conhecido meu esse rapaz, estamos no mesmo bairro, para ganhar tempo sorrio de volta e devolvo a genérica exclamação, “mas eu não acredito!”, continuamos andando, “há quanto tempo, meu irmãozinho!”.

Frente a frente, estendo minha mão para seu efusivo cumprimento, o cachorro me olha de soslaio, creio que tentando decidir se deve proteger seu dono por meio do meu estraçalhamento, resmunga qualquer coisa, o rapaz olha para baixo e faz apenas “sh” com a boca, o cachorro senta, desapontado.

“E esse dog aí”, pergunto, para ganhar mais alguns segundos, ainda não sei quem é o rapaz, repare que eu já pergunto em inglês que é para demonstrar tranquilidade nessa ocasião social, claro que eu sei quem é você, sei tanto que nem me importo em perguntar da sua vida, minha prioridade agora é saber do dog, “esse aí eu acho que nem cheguei a conhecer, esse dog”, arrisco, ele não se abala, “também… faz mó tempão que não te vi mais”

Analiso o que eu já sei sobre ele: faz tempo que não nos vemos, ele deve ser de São Paulo porque fala “mó” em vez de “maior”, é um rapaz que preza a elegância, gosta de cachorro grande, essa união de características não bate com a des­crição de ninguém que eu jamais tenha conhecido, meu Deus, quem é esse sujeito? Começo a pensar que ele está me confundindo com alguém, ai se esse cachorro me morde.

“E aí, nunca mais foi lá? Depois daquela época que eu parei de ir nunca mais vi ninguém daquela galerinha”, misericórdia, como é possível que alguém pronuncie tantas palavras sem dizer absolutamente nada, não me deu uma única dica de qual era o lugar, época ou galerinha a que se referia, está me olhando agora, prestando muita atenção na minha resposta.

“Rapaz… acredita que logo que você deixou de ir eu também acabei não indo mais”, a expressão de extrema surpresa em seu rosto me faz crer que é um lugar a que eu não deixaria de ir com a mesma facilidade que ele, eu era muito mais apegado ao lugar e à galerinha, ai, que bola fora, só algo muito grave me faria deixar de ir lá, “pois é, piá, minha mãe ficou doente e foi a maior correria”, ai, Jesus ainda vai me punir por mentir doença de mãe, mas era necessário e ninguém colocaria em dúvida uma coisa tão séria, ele imediatamente demonstrou compreensão, minha pressão arterial normaliza. O cão observa.

Já tenho certeza que nunca conheci esse rapaz na vida, por isso decido que é necessário encerrar essa conversa sem pé nem cabeça imediatamente: “meu querido, que pena, estou com muita pressa agora, mas passa lá em casa, estou morando no mesmo lugar”. Aprendi a usar as armas do inimigo com destreza. Ele afirma que irá, com certeza, e que lembra onde eu moro, claro. Despedimo-nos efusivamente.

Não sei seu nome e isso aconteceu por volta de 1998. Se você for esse rapaz, só queria contar que eu me mudei já tem um tempo e esqueci de te avisar. Passa lá em casa.

Publicado na edição 1147 – 24/01/2018

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