Nascido nos jardins de um zoológico do Rio de Janeiro, o jogo do bicho escapou das grades, ganhou as ruas e se transformou em uma das loterias mais populares do país.

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No fim do século XIX, o Rio de Janeiro queria parecer moderno. A cidade crescia, os bondes circulavam, e novos bairros surgiam sob o signo da ordem e da civilização. Em Vila Isabel, o empresário João Batista Viana Drummond, futuro barão de Drummond, decidiu construir um Jardim Zoológico. A proposta era oferecer lazer, educação e contato com animais e plantas exóticas.

O zoológico foi inaugurado em 1888 e logo se tornou uma atração concorrida. Porém, a manutenção do parque era cara, e a ajuda financeira recebida da Prefeitura não bastava. Em 1890, Drummond pediu autorização para explorar jogos lícitos dentro do estabelecimento. A Câmara Municipal permitiu a iniciativa, desde que houvesse fiscalização policial.

Entre as diversões oferecidas estava uma novidade: o jogo dos bichos. Ao entrar no zoológico, o visitante recebia um bilhete com a figura de um animal. No fim do dia, o barão revelava, dentro de uma caixa pendurada num poste, qual bicho havia sido escolhido. Quem tivesse o animal sorteado recebia um prêmio.

O primeiro sorteio ocorreu em 3 de julho de 1892. O animal escolhido foi o avestruz, que premiou 23 pessoas. A notícia repercutiu nos jornais e o jogo rapidamente se tornou mais comentado que o próprio zoológico.

Em pouco tempo, os bilhetes passaram a ser vendidos também fora dos muros do parque, inclusive na movimentada Rua do Ouvidor. Já não era necessário visitar os animais para apostar.

O sucesso, entretanto, despertou a desconfiança das autoridades. O que havia sido apresentado como uma atração útil e agradável passou a ser visto como um jogo de azar. Pessoas procuravam o zoológico não para conhecer sua coleção de animais, mas para tentar ganhar dinheiro. Em 1895, o poder público iniciou medidas para interromper a atividade, que acabou proibida naquele mesmo ano.

Mas os bichos não desapareceram. Sem o zoológico, o jogo encontrou as ruas do Rio de Janeiro, que vivia uma fase de crescimento populacional, circulação de dinheiro e expansão das loterias. Bilhetes eram vendidos em bares, armazéns, quiosques, lojas de bookmakers e por vendedores ambulantes.

Fora do parque, o sistema foi se transformando. Os animais passaram a ser associados a números e, mais tarde, organizados em grupos e dezenas. Durante décadas, diferentes bancas realizavam seus próprios sorteios até que, na década de 1940, o sistema PARATODOS contribuiu para a centralização dos resultados.

A história do jogo do bicho revela uma curiosa contradição. O poder público ajudou a criar e a legitimar a atividade, mas depois tentou eliminá-la. A repressão, porém, não venceu a popularidade de uma aposta barata, simples e acessível. O jogo se espalhou pelo país e permaneceu presente no cotidiano brasileiro.

Enquanto o Jardim Zoológico de Vila Isabel enfrentou crises até fechar suas portas no início dos anos 1940, o jogo do bicho sobreviveu. Os animais que um dia foram exibidos atrás das grades escaparam para as ruas — e continuam, até hoje, fazendo parte da memória e da cultura popular do Brasil.

Imagem: O SABOR DO FRUCTO PROHIBIDO O MACACO: “Uma vez legalisado o Jogo, estamos perdidos. Ninguem jogara mais.” Ilustração de J. Carlos. Capa da revista Careta, nº 427, de 26 de agosto de 1916.

Edição n.º 1943

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