Uma pesquisa da Ipsos-Ipec, realizada a pedido do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), e divulgada recentemente, surpreendeu muita gente. Segundo a pesquisa, a maior parte dos brasileiros declarou não beber em 2025, ou seja, 64% dos entrevistados. Esse resultado foi positivo, já que em 2023, a porcentagem era de 55% de pessoas que disseram não consumir álcool.

Mas a surpresa maior veio entre os jovens, cujo número também foi positivo: a abstinência de álcool aumentou de 46% para 64% entre pessoas de 18 a 24 anos, e de 47% para 61% entre pessoas de 25 a 34 anos. Em entrevista ao jornal O Popular, a psicóloga Angelica Krzyzanovski, explicou alguns pontos que podem ser a causa desse aumento.

De acordo com ela, a geração Z aparenta ser a mais preocupada com a saúde, principalmente a mental. Por conta disso, a busca por atendimento psicológico ou psiquiátrico é mais rápida entre as pessoas desta geração do que de outras. “Acredito que a pandemia influenciou na relação dos jovens com o álcool. A maior parte deles estava na idade em que comumente as pessoas saem para baladas e bares. A chance de uma pessoa beber quando está com amigos ou outras pessoas é maior do que beber sozinho em casa. Além disso, a saúde física e mental teve um foco muito maior e fez com que essa população buscasse um estilo de vida mais saudável”, ressalta.

A psicóloga também destaca que outro ponto importante que pode influenciar nesta mudança é a ação global destinada à redução do consumo de álcool, além da modificação da lei em relação às propagandas de bebidas alcoólicas. “Na década de 90, era comum ver propagandas sobre isso, inclusive com apelos infantis como desenhos ou bichinhos falantes que romantizavam as bebidas. Essas propagandas foram proibidas em 1996. Algo muito parecido ocorreu com o cigarro, hoje os jovens também fumam muito menos cigarros, apesar dos pods e vapes estarem sendo consumidos”, compara.

Envolvendo fatores emocionais, ela afirma que é necessário avaliar caso a caso. Porém, de maneira geral, esses jovens podem ter tido experiências negativas com algum familiar alcoólatra, desenvolvendo a consciência no mal que o abuso de álcool pode causar na saúde. Outro exemplo é não terem sido incentivados a beber desde muito cedo, como acontecia com gerações mais antigas. Também existe a possibilidade de os jovens se envolverem em movimentos religiosos que pregam a abstinência.

“Apesar da redução do abuso de álcool, o consumo continua grande e beber socialmente ainda é aceito e incentivado. Os jovens que estão nesse contexto podem ser pressionados a beber, nem que seja ‘só um golinho’. Já nos contextos, em geral religiosos, que pregam a abstinência, acredito que esse jovem é reforçado por não beber e seguir o propósito. Oriento que esses jovens continuem firmes em suas convicções, cuidando da sua saúde física e mental. Repensar se os amigos que insistem que você beba são de fato amigos que querem seu bem. Você pode fazer suas próprias escolhas pensando no melhor para você!”, reforça a doutora.

Em alguns casos, é comum a substituição de uma dependência por outra. A psicóloga Angelica afirma que é necessário analisar cada situação, mas pode acontecer da pessoa parar de beber e acabar compensando em outras dependências como jogo, exercício físico em excesso e entre outros.

Para finalizar, a profissional deixa claro o papel importante da família nessa situação. “Se a família bebe e o jovem não, o importante é não pressionar para experimentar ou ‘dar só um gole’. Os pais deixar que os filhos façam suas escolhas pensando no bem-estar. Quem sabe pode ser uma ajuda para que os pais também reduzam o consumo de álcool”, sugere.

Edição n.º 1502. Victória Malinowski.