Curitiba. Cidade modelo. Cidade luz. Cidade tonight. Tem ligeirinho. Expresso. Azulão. Quase metrô. Cidade onde sou amplamente conhecido por ser um completo anônimo. Exceto para alguns colegas de trabalho – alguns – e uns três ou quatro atendentes de farmácia. Tirando isso, eu poderia circular livremente, da CIC ao Atuba, sem paparazzi nenhum me azucrinando.

Já no lado de cá da CIC, no final da João Bettega, onde tem aquela curvinha melindrosa por baixo da BR, meus problemas começam, e parece que eu sou celebridade.

Mas não o tempo todo, claro. Na maior parte do ano eu posso andar tranquilamente também. De quase todos os anos. Mas em ano de eleição, meu lindo leitor, eu confesso: aquela placona verde com os dizeres “Bem vindo a Araucária” me causa certa comoção. É como se eu estivesse me preparando para desfilar na calçada da fama.

Lembro que há alguns anos um empresário de Araucária muito me emocionou ao solicitar que um amigo em comum me fizesse uma oferta. Ciente da responsabilidade cultural que sua empresa deveria adotar, ele julgou que minha banda (além de escrever aqui eu também arranho um violão) era tão boa que merecia um aporte financeiro. Aquilo muito me lisonjeou, afinal a gente trabalha é pra ser reconhecido mesmo, certo?

Como o empresário, todavia, tinha um grau de parentesco com um então candidato a vereador, achei por bem polidamente recusar a oferta, afinal o que pensariam os eleitores de seu irmão ao saber disso? Poderia parecer que a família andava distribuindo dinheiro pela cidade. Não querendo deixar o sujeito cair em boca de Matilde, solicitei ao agradável empresário que me procurasse um dia após as eleições para podermos tratar daquele patrocínio.

Naquela semana eu fui dormir feliz. Agora vai.

Passada a eleição, minha conta seguiu do mesmo tamanho e o interesse do irmão pela cultura municipal desapareceu.

Assim, leitor, neste momento em que tristemente vejo se desenrolando a política nacional e estadual, continuo andando incógnito pelas ruas, avenidas, vielas desta cidade que tanto amo e em cujas esquinas tanto espero por um olhar de reconhecimento pelas minhas grandes qualidades intelectuais e musicais.

Sei que esse reconhecimento chegará a seu tempo. No mínimo, daqui a dois anos, quando aquela placona novamente assumir seu ar de “Você, sim, você, seja muito bem vindo, meu rei. Hoje todo mundo é rei. Hoje tudo tem seu preço e nada é caro demais.”

Publicado na edição 1131 – 20/09/18

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