Recentemente tivemos dias de calor quase insuportável, que trouxeram sérios transtornos e prejuízos. Os ventiladores sumiram do comércio e quem se vangloriava de não usá-los comemorou se conseguiu adquiri-los. Foi o genuíno calor do cão, ou canícula, conforme se diz no hemisfério norte e mesmo por aqui. Lá, os períodos de maior calor coincidem com a passagem do disco solar pela Constelação Cão Maior, de onde vem a expressão que também adotamos. As atividades agropecuárias, por serem diretamente influenciadas pelas intempéries, contabilizaram grandes perdas. Galpões de criação de frangos sofreram elevada mortalidade, quando o Calor do Cão se associou com a falta de energia elétrica. Salvo em estruturas ultramodernas e caríssimas, perdas parciais ou até totais de lotes de frangos foram inevitáveis e comprovaram o alto índice de investimento exigido para o sucesso em atividade tão especializada. As lavouras de soja apressaram irregularmente a maturação e parte das folhas secou pelas altas temperaturas e pela baixa umidade, o que ocorreu também em parte dos cultivos de milho e de hortaliças. Fica claro que, para acompanharmos a dinâmica produção em escala da economia globalizada, ações de cunho técnico e de amparo econômico devem ter prioridade e planejamento adequado. O mundo mudou e é preciso entendê-lo para consolidar a presença do Brasil entre as maiores economias do mundo. Com a volta das chuvas, assim que a frente fria conseguiu romper a massa de ar seco, o clima tornou-se mais ameno e as atividades agropecuárias retornaram a normalidade, mas é prudente manter o alerta. A política, atividade fundamental para a tranquilidade e para o desenvolvimento, parece ainda estar sob o Calor do Cão. O calor do debate político pode fazer surgir soluções para as agressões das intempéries ou torná-las mais prejudiciais e até letais, quando excessivo e descontrolado. Legítimas manifestações populares, tomadas por atos de destruição, culminaram na morte de um repórter. A polícia suspeita que parte dos chamados Black Blocs seja composta por verdadeiros biscateiros, pois não reivindicam espontaneamente melhorias. Há evidências de que alguns são recrutados mediante o fornecimento de condução, alimentação e até pagamento de diárias. É muito preocupante que a democracia, regime que tantos progressos e liberdade tem nos trazido, esteja exposta ao ataque de pessoas que não sabem avaliar o que está em jogo. As ditas elites e os chamados formadores de opinião precisam ter consciência de que o risco é enorme. Favorecer ou prejudicar uma candidatura ou corrente política não pode ser o objetivo principal. É a manutenção dos avanços conseguidos com a liberdade de expressão permitida pela democracia e pelo desenvolvimento econômico, que tanto importa à população. O Calor do Cão climático é inevitável, mas a ação política deve ocorrer em temperatura suportável para o país.

Júlio Telesca Barbosa
Engenheiro Agrônomo

 

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