Vando Fortuna: Exu e a luz da Quimbanda
Na Coluna Riqueza da Alma, Vando Fortuna explica o papel de Exu como espírito guardião e mentor espiritual na Quimbanda, além de desfazer estereótipos sobre a entidade.
Exu, Exu Tranca-Ruas, abre o trabalho e fecha a rua.
Exu, Exu Tranca-Ruas, abre a leitura e fecha a loucura!
E que a luz da leitura desmanche de uma vez a loucura da ignorância, do fanatismo de quem se sente melhor que o outro por crença, cor, gênero, sexualidade, religião ou lugar de privilégios.
Exu Catiço, o espírito guardião, é a entidade que mais me fascina na Quimbanda — essa religião de matriz afro-brasileira que cultua Exus e Pombagiras. E o que me pega nele? Ele faz o bem e faz o mal. Só que não daquele jeito que alguns romantizam, inventando uma guerra épica entre anjos e demônios, entre o “bem” ou “o mal”. Exu é Exu. Ponto. Não tem nada a ver com o capeta dos outros.
Para quem vive as religiões de matriz africana, Exu é aquele que fica na porteira da casa, na porta, na tronqueira, zelando por quem o adora. Ele abre a rua pra gente ter caminho bom durante o dia e fecha a rua pra que o mal — inclusive o que a gente nem enxerga — não chegue perto.
Exu também é feiticeiro. É o mentor que sabe lidar com energia, desejo, sentimento, trabalhar com outros compadres e comadres e resolver demandas que, sozinhos, a gente às vezes não dá conta. Ele toma conta e presta conta. Onde se planta o mal no caminho de quem está sob sua força, ele vai atrás e faz o mal voltar pra quem plantou.
Exu é fantástico porque não finge ser santo e também não se faz de demônio. Ele não nasce da tradição cristã nem da Bíblia. Ele pertence ao terreiro. É uma herança ancestral dos povos africanos e afro-brasileiros. “Laroyê Exu. Exu é Mojubá – Exu, eu o reverencio”.
Pede generosidade e gratidão de volta. Pagar Exu é dar a ele o lugar de honra que lhe cabe.
O “mal” que Exu faz é outro. É deixar que, nas nossas contradições pessoais — naquilo que a gente diz ser e não é —, caiam algumas carapuças. Ele mostra a mentira que a gente contava pra si mesmo ou pros outros. Exu é astuto, é divertido, gosta de ficar de camarote observando como a gente se comporta nas encruzilhadas da vida e qual lado escolhe assumir.
Ele traz a sombra à tona justamente pra que a gente se recoloque na própria luz. E essa luz é pessoal. Nunca universal. Longe de mim querer uma luz só pra todo mundo, quando existem tantos caminhos, tantas gentes, tantos gostos diferentes. O que brilha na alma de um não acende no do outro — e isso, pra mim, é o mais fantástico em Exu. Como mentor espiritual, ele empurra a gente pra mais perto e pra dentro da própria verdade, sem julgamento. Como um amigo conselheiro de verdade: só oferece as condições e os desafios que cada escolha carrega.
Ter luz é ter sabedoria pra se virar nas encruzilhadas. A encruzilhada é o símbolo que liga a vários caminhos, mas sem nenhuma definida de antemão. Como em Alice no País das Maravilhas: qualquer estrada serve.
Edição n.º 1944
