Vando Fortuna: Meu primeiro beijo gay
Eu não nasci para ser santo. Nasci para ser beijoqueiro.
E você, meu leitor… não se faça de desentendido. A gente já aprontou muito nessa vida — e, sendo bem honesto, ainda vai aprontar mais um pouco até o fim dela. Então engole esse falso moralismo, senta confortável e lê isso aqui com prazer.
Eu nunca me esqueço do meu primeiro beijo gay.
Sim, beijo gay — porque não foi só um beijo. Foi um evento. Um acontecimento. Um daqueles momentos que rasgam a vida em antes e depois.
Eu estava viajando com minha mãe e minha família para Bonito, no Mato Grosso do Sul. Na época, eu ainda era evangélico da Congregação Cristã e buscava, com uma fé quase desesperada, a tal da “cura gay” em orações completamente inúteis.
Até que, nas margens do Rio Formoso, quase no fim do ano, em meio àquelas águas cristalinas, eu conheci Elton.
Olhos esverdeados, queixo levemente quadrado, sorriso ligeiro, barba daquelas que arranham gostoso a pele da gente… e uma presença que não pedia licença — simplesmente acontecia.
Ele estudava engenharia civil. Eu, contabilidade.
Mas ali, dentro daquele rio, nenhuma dessas coisas importava.
Eu nunca tinha tido uma conversa tão boa com alguém. Eu ria fácil com ele. Mas não era só isso. Tinha algo acontecendo no meu corpo — um arrepio que não vinha da água.
Vinha dele.
Era como se o mundo inteiro tivesse desaparecido e só restasse aquele homem na minha frente. Eu não queria mais nadar. Eu queria me perder.
Me perder nos braços dele.
Claro que eu dei meu jeitinho. Fiz minha mãe dar carona pra ele do recanto até o centro de Bonito.
Coitada… não fazia ideia do tipo de calor que aquelas águas tinham escondido.
O desejo de estar perto dele já não cabia mais em mim.
E então veio o Réveillon.
Depois que todo mundo dormiu, eu saí. Fui encontrar ele na rua principal da cidade, onde a festa acontecia. Conversamos. Rimos. E, em um momento que eu nunca vou esquecer…
Ele segurou minha mão.
E ninguém nunca tinha feito aquilo daquele jeito.
Sem medo.
Sem vergonha.
Sem julgamento.
Ele me puxou para trás de uma árvore, num canto mais escuro. Me abraçou forte — forte de um jeito que eu nunca tinha sentido.
E então ele me beijou.
E eu morri ali.
Sim, você está lendo isso aqui de um espírito que já morreu uma vez… porque aquele beijo foi a coisa mais viva que eu já senti na vida.
Foi explosão.
Foi cor.
Foi calor.
Foi hálito doce misturado com desejo.
Foi a mordida dele no meu lábio inferior.
Foi vida pulsando onde antes só existia repressão.
A língua dele não beijava.
Ela escrevia.
Desenhava poesia dentro da minha boca.
E, naquele momento, eu pensei: se isso for pecado… então eu aceito qualquer inferno. Porque nada podia ser mais verdadeiro do que aquilo.
Mas aí veio o dia seguinte.
E junto com ele… a ressaca religiosa.
Tudo o que tinham colocado na minha cabeça voltou como um soco. Eu não estava feliz — eu estava “em pecado”.
Olha o nível da violência.
Na volta para o Paraná, tive crises de ansiedade. Minha mãe precisou parar no pronto-socorro no meio da viagem. Não era doença física.
Era culpa.
Era medo.
Era uma lavagem cerebral tão profunda que eu não conseguia sustentar a felicidade que tinha sentido.
Ainda falei com Elton depois. Tivemos trocas lindas, conversas, chamadas de vídeo… mas dentro de mim existia uma voz maldita dizendo que aquilo era errado.
E então veio a prova.
Ele saiu de moto e foi até Curitiba para me ver.
E eu não fui.
Eu não tive coragem.
Ele ficou chateado. E com razão.
E eu sei que você, lendo isso agora, também ficou.
Mas entende uma coisa, meu amigo leitor:
Para muitos de nós, gays, o amor nunca foi incentivado.
Foi condenado.
Atacado.
Demonizado.
E eu estava ali, parado, assistindo o possível homem da minha vida ir embora… enquanto eu me sacrificava por uma mentira que nem era minha.
Edição n.º 1513.
