Muita gente se pergunta por que uma criança nasce com autismo ou com outras deficiências. Afinal, quando olhamos para elas, é quase inevitável descrevê-las como verdadeiros anjinhos.

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De fato, aos nossos olhos, elas parecem irradiar uma pureza singular. Mas a Doutrina Espírita nos convida a olhar além da matéria e compreender que o corpo físico é apenas a veste temporária de uma alma imortal.

Allan Kardec nos ensina que nada na criação divina acontece por acaso ou como castigo. Sob a luz da reencarnação, podemos compreender que determinadas limitações deixam de ser uma ‘injustiça da natureza’ para se revelarem como oportunidades profundas de aprendizado e recomposição espiritual.

Diversos autores espíritas, entre eles Chico Xavier e Divaldo Franco, refletiram que algumas almas podem reencarnar em condições que favoreçam um processo de proteção, reorganização ou amadurecimento interior. Não porque sejam inferiores, nem porque estejam sendo punidas, mas porque cada existência possui um propósito que, muitas vezes, ultrapassa nossa compreensão.

Se chamamos essas crianças de ‘anjinhos’, talvez não seja porque sejam Espíritos sem passado, mas porque sua presença parece nos lembrar de algo que nós, adultos, esquecemos ao longo da vida: a simplicidade do amor.

Elas chegam às famílias rompendo a lógica da produtividade, da pressa e das expectativas. Ensinam que um olhar pode valer mais do que um discurso inteiro. Que um abraço sincero comunica mais do que mil palavras. Que celebrar um pequeno avanço pode ser muito mais importante do que conquistar grandes títulos.

Antes de ser cartomante e mentor espiritual, tive a oportunidade de viver uma das experiências mais transformadoras da minha vida. Fui professor da Educação Infantil na cidade de Araucária durante aproximadamente treze anos. Grande parte desse tempo foi dedicada ao atendimento de crianças com deficiências múltiplas e crianças autistas, muitas delas não verbais, no CMAEE Joelma.

Foi ali que aprendi algumas das maiores lições da minha existência.

Vi crianças aprenderem a vestir um casaco sozinhas depois de meses de tentativas. Vi pequenas mãos segurarem uma colher pela primeira vez. Vi o medo do toque dar lugar à segurança de um abraço. Vi sons se transformarem em música e a música abrir caminhos onde as palavras ainda não conseguiam chegar.

Mas, acima de tudo, eu vi famílias inteiras sendo transformadas.

Conheci mães completamente exaustas, muitas delas abandonadas pelos companheiros, sustentando praticamente sozinhas o cuidado dos filhos. Mulheres que chegavam machucadas pela vida, física e emocionalmente cansadas, mas que encontravam forças para comemorar algo que, para muitos, parecia pequeno: um cadarço amarrado sozinho, um ‘xixi’ feito de forma independente, um gesto novo de carinho, um sorriso inesperado.

Entre um choro e outro, essas mães continuavam segurando a mão dos filhos como quem segura um verdadeiro presente de Deus.

Foi convivendo com essas famílias que compreendi que, muitas vezes, quem imaginamos estar ensinando é justamente quem veio nos ensinar.

Talvez o maior milagre dessas crianças não seja aquilo que conseguem aprender.

Talvez seja aquilo que despertam em todos nós.

Hoje escrevo com o coração apertado pela partida de um menino com autismo de apenas cinco anos. Rezei por ele. Continuo rezando por sua família. E peço a Deus, segundo a fé que habita meu coração, que a espiritualidade amorosa o conduza em paz e que o Mestre Jesus o acolha com todo o amor que sempre dedicou às crianças.

Independentemente da crença de cada um, desejo que nunca percamos a capacidade de enxergar essas crianças para além de qualquer diagnóstico.

Porque algumas almas passam pela Terra por muitos anos.

Outras passam por pouco tempo.

Mas existem aquelas cuja missão é tão profunda que conseguem transformar uma família inteira — e, às vezes, até o coração de quem apenas teve a oportunidade de cruzar o seu caminho.

Edição n.º 1943

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