Em todas as cidades sempre encontramos uma ou mais pessoas que costumamos chamar de “Figura da Cidade”. Geralmente são pessoas simples, humildes, cada uma delas tem sempre uma história que a diferencia das outras pessoas ou simplesmente as conhecemos a tanto tempo que passam a fazer parte da vida da cidade e se tornam respeitadas e amados por todos os moradores.

Bem, aqui em Araucária, há algumas décadas atrás tivemos o nosso personagem que agora é uma lembrança muito especial. Tratava-se de um Senhorzinho que era conhecido de todas as famílias desde o mais idoso ao mais jovem. Pouco se sabia sobre sua descendência, nada se sabia sobree o sobrenome dele, mas ele residia no térreo ou porão da casa de Dona Maria Idê naquele casarão que havia na esquina da Praça Dr. Vicente Machado.

Para todos apenas o nome JOÃOZINHO, era uma pessoa muito querida, andava pela cidade, cumprimentava todos, sempre sorrindo, sempre descalço, usava um terno surrado, um chapéu amassado, roupas velhas e mesmo ganhando sempre cintos e calças novas preferia usar as roupas velhas e amarrar uma corda na cintura. Nesta corda era onde ele trazia uma caneca esmaltada e sempre chegava nas casas e já ia perguntando “tem café?” e sempre tinha.

Era atendido gostava de sentar perto do fogão a lenha conversando, contando sempre uma novidade, pegava o pão com manteiga molhava no café com leite e deixava guardado um pedaço pra comer com mortadela mais tarde. Ele sempre recolhia sapé (galhos secos de pinheiro) pra acender os fogões e fornos a lenha, era uma época que em nossa cidade todas as casas tinham fogão a lenha, forno de tijolos e muitos pinheiros nos campos. Joãozinho era amigo de todos. Algumas crianças tinham medo dele, mas outras e muitas gostavam de brincar com ele, porque seu comportamento era o mesmo de todas as crianças.

Joãozinho era portador da Síndrome de Down, e para as pessoas dos anos 50, 60 e até 70 o nome deste cromossomo era desconhecido. Então todos na cidade o chamavam de “Joãozinho Bobo” e assim ele sempre era conhecido. Apesar de hoje ser considerado uma ofensa grave, não era usado como termo pejorativo, no entanto se alguém usasse o tom de voz como ofensa, imediatamente era repreendido e pedia desculpas porque ele era um adulto com alma de uma criança sensível.

Nos anos 70, o casal Carmem e Pepe Gonzales inauguraram na esquina da Major Sezino com a Pres. Carlos Cavalcanti o Supermercado Iguaçu e nessa esquina próximo a Casa Comercial de Alceu Cantador a filha do casal Joseli do Carmo Gonzales conseguiu fotografar esses dois amigos em um abraço: Joãozinho e Setembrino.

Do Setembrino pouco se sabe, só que ele era andarilho, sempre com um carrinho de mão, mas não era muito conhecido e assim como apareceu de repente foi embora, mas nossa lenda era o Joãozinho, com seu sorriso amigo, pés descalços (ele não gostava mesmo de andar calçado) que só colocava botinas no inverno e depois de muito a gente pedir pra ele.

Depois de muitos anos, já em idade avançada e doente, Joãozinho foi internado na Lapa para tratamento onde veio falecer, já nos anos 80. Por tantas décadas Joãozinho Bobo foi um personagem querido de nossa cidade, uma criança eterna, um anjo que não pudemos sepultar.

Esse senhorzinho por tantas décadas conhecemos, amamos e respeitamos hoje é uma lembrança que traz grandes saudades e que foi a “Figura de Araucária” não folclórica, mas real.

Edição n.º 1502.