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Coletânea de contos terá texto de Zanella

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Daniel Zanella, 25, escritor araucariense, co-autor de dois livros e cronista, teve um texto de sua autoria selecionado no I Concurso de E-Contos da Ficções Editora, uma editora paulista especializada em e-books e vendas de livros pela internet.
O concurso teve abrangência nacional e contou com aproximadamente 400 inscritos. “Fiquei surpreso com o resultado do concurso. Enviei para análise do conselho editorial uma crônica antiga que se encaixava dentro do regulamento, que estipulava limite de 1400 caracteres e texto único, e acabei sendo selecionado entre os 40 melhores contos”, conta o escritor.
A editora lançará a coletânea E-Contos na 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que acontecerá entre 12 e 22 de agosto, no Anhembi.
O livro digital estará disponível no estande da editora, que pretende reunir todos os autores. “É uma oportunidade de entrar em contato com editores, livreiros, leitores e conhecer um pouco mais da dinâmica cultural paulista, algo importante na carreira de qualquer escritor”, finalizou Zanella. 

João É Um Vidro
João nasceu há pouco tempo. É uma criancinha séria e curiosa. Seus olhos velozes espreitam as mulheres que o acariciam ternamente. É uma criança exemplar que não chora. Sequer desperdiça feições.
João espreita os arredores compenetrado com mais alguns delicados movimentos de mãos. Seus olhos azuis parecem perguntas.
João tem sete quilos e precisa se trocar. Todos se adornam de imensos cuidados na presença de João. E por causa de João. [As mulheres todas parecem progenitoras e os homens encabulados. Porque uma criança na mão de um homem é uma matéria estranha.]
João traz à tona um compêndio primitivo, uma antropologia que paira nos carinhos infantilizados e nos afagos métricos. Todos zelam por João. Os idosos lacrimejam silenciosamente e tocam em seus agasalhos. Os idosos não querem um João com frio.
Penso que um vidro é uma composição transparente através da qual enxergamos determinada coisa. Um reflexo, um simulacro da existência (porque as coisas só são objetivamente aquilo que são se acreditarmos que não existem formas alternativas de compreensão.)
Enxergo em João uma simplicidade que perdi ao primeiro dia de fome e uma ligadura singela que faz os avôs andarem arcados e contemplativos.
João me torna inédito e me faz pensar na transitoriedade, nos amores, nas viagens. Encosto minha mão direita cheia de luz nos cabelos loiros de minha companheira.
João é um vidro.