EDIÇÃO ESPECIAL DE ANIVERSÁRIO – 132 ANOS

Custo de vida baixo, população solidária, clima ameno e oportunidade de emprego. Estes são os principais pontos que a comunidade venezuelana que vive em Araucária destaca como vantagens de morar na cidade. O Paraná é o Estado que mais recebe migrantes interiorizados, ou seja, aqueles que chegam pela fronteira no Norte do país e depois, migram para outras localidades.

O Governo Federal, através de um conjunto de ministérios, tem vários programas de apoio para estas pessoas. No entanto, são os voluntários que acabam auxiliando. Entidades religiosas da cidade, como os Adventistas e Vicentinos, por exemplo, fazem todo um trabalho de acolhimento e encaminhamento, fornecendo comida, roupas e ajudando na colocação do mercado de trabalho.

Conheça a seguir a história de migrantes venezuelanos que escolheram Araucária para viver e aqui fincaram raízes.

Com a carteira assinada, marceneiro escolhe Araucária para viver

Cerca de 82 famílias de venezuelanos são auxiliadas por entidades; cidade atrai pelo custo de vida. Foto: Marco Charneski

O ano era 2018 e Pascual Enrique Marcano, hoje com 23 anos, fazia faculdade de Administração de Empresas, na cidade de El Tigre, capital do município de Símon Rodriguez, na Venezuela. Ele só estudava e tinha o sonho que todo jovem de sua idade tem em qualquer país do mundo, ou seja, se formar e arrumar um bom emprego. Mas a crise que se instaurou no país vizinho fez com que Marcano deixasse família, amigos e estudos para trás e migrasse para o Brasil.

Chegou primeiro em Boa Vista (Roraima), destino de 80% dos migrantes daquele país. Lá, fez malabarismos para sobreviver. Foi vendedor de trufas, artesanato e vasilhas de plásticos nas ruas quentes da cidade. Passou muito perrengue até arrumar um emprego de auxiliar de marceneiro. Mas sem carteira assinada e com o salário muito baixo, Marcano não estava conseguindo fechar o caixa.

“Passei muitas dificuldades, mas isto faz parte de quem sai de casa e quer vencer”, avalia. Ficou em Boa Vista por dois anos. Primeiro foi morar na casa de amigos. Mas assim que arrumou emprego, mudou de casa. Mesmo assim, o salário não era suficiente para todos os sonhos que tinha planejado. “Meus pais passam dificuldades. Meu pai está desempregado e eu não estava conseguindo mandar dinheiro para eles”, lamenta.

E foi lá em Boa Vista mesmo que ouviu falar que no Paraná ele ia ter mais chances de ganhar um bom salário. “Eu não tinha amigos aqui, só conhecidos. Mas ouvi dizer que aqui o custo de vida era mais baixo, o que me motivou muito”, lembra. Não teve dúvidas, arrumou as malas e pegou um voo para a capital paranaense.

“Cheguei em plena pandemia em Curitiba. Era julho e estava muito frio”, recorda.
Na capital, hospedou-se na casa de venezuelanos e arrumou emprego numa marcenaria. Mas o patrão não quis assinar carteira e nem pagar em dia. “Então comecei a batalhar por outro emprego”, explica. Mesmo assim trabalhou oito meses no local.

Em Curitiba, os amigos tinham uma rede de contatos em Araucária, todos da Igreja Adventista, da qual ele também faz parte. “Postei uma foto no Facebook, eles me mandaram mensagem e me convidaram para conhecer a cidade”, conta.

Sem nem saber chegar em Araucária, aceitou o convite mesmo assim. “Já comecei a me animar no ônibus. A passagem é muito barata”, aponta. Chegando na igreja, naquele dia não havia culto. “Mas o pessoal da ASA (Ação Solidária Adventista) estava lá. Eu estava com frio e me deram uma blusa. Fomos puxando conversa e fizemos amizade”, recorda. Saiu de lá encantado pela cidade e pela hospitalidade das pessoas que tinha conhecido.

De olho em uma nova oportunidade de emprego na cidade, Marcano pesquisava todos os dias as vagas nas redes sociais. Também avisou os amigos que, caso soubessem de alguma colocação na cidade, que o comunicassem. E não é que surgiu uma?

“Como não era registrado, faltei um dia no emprego de Curitiba e fui para a entrevista em Araucária. Fiquei um dia na marcenaria trabalhando e saí de lá já com a carteira assinada”, comemora. De volta à Curitiba, pegou um frete, deu adeus ao emprego e foi para a nova vida. “Peguei as poucas coisas que tinha e vim. Foi a melhor decisão que tomei”, acredita.

Atualmente, na marcenaria que trabalha, espera por uma promoção. “Quem sabe assim poderei voltar a mandar dinheiro para os meus pais”, planeja. Desde que chegou, Marcano sempre procurou ajudar sua família. “Mas ultimamente tenho mandado dinheiro mês sim, mês não”, lamenta.

Aqui, também conquistou uma legião de amigos. “Araucária é uma cidade de gente muito boa”, elogia. A única tristeza do venezuelano é não ter voltado ao seu país, desde que chegou há quatro anos. “Mas ainda bem que tem internet. Me comunico via chat quase todos os dias com minha família e amigos de lá”, relata. Planos para voltar? Por enquanto, nenhum. Marcano se apaixonou pela marcenaria. “Sou curioso. Agora quero fazer cursos, me especializar e crescer na profissão. Aqui eu sei que vou conseguir”, finaliza.

Família veio incompleta

As gêmeas Kairubys e Airubys Gimenez chegaram há pouco mais de um ano, para alegria e preocupação dos pais, Karina Willians e Alberto Jimenez. Como nasceram de seis meses, acabaram ficando um mês na UTI do hospital. Para piorar a situação, uma delas nasceu com um problema congênito e aguarda uma cirurgia pelo SUS. Hoje elas estão com um ano de idade.

A família veio da cidade de Bolívar, na Venezuela, mas veio incompleta, porque o filho de 11 anos, ficou com os avós. Há três anos eles não se reúnem. “Tenho muitas saudades, mas por enquanto, por causa da pandemia, não dá para ele vir”, lamenta Karina. Por causa da pandemia, as crianças ainda não se conheceram pessoalmente, apenas por chamada de vídeo.

Há um ano vivendo em Araucária, o casal, ao vir da Venezuela, primeiro passou pela Guiana Inglesa. “Meu marido não fala inglês, mas eu falo. Então, para ele ficou difícil trabalhar. Decidimos vir para o Brasil”, explica. Chegou primeiro em Boa Vista. “Ele foi trabalhar como motorista, mas lá também estava muito difícil. Então, decidimos vir para cá”, conta. Atualmente Jimenez trabalha como motorista de aplicativo na cidade.

De Araucária, Karina destaca a solidariedade da população para com quem vem de fora, o custo de vida mais em conta e o clima fresco. “Aqui as pessoas são muito carinhosas e é muito tranquilo viver”, diz.

Adventistas ajudam com voluntariado

Como parte do processo de reestruturação do trabalho social da Igreja Adventista no Brasil, foi criada a ASA – Ação Solidária Adventista, cuja atuação é diferente da ADRA – Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais. A Ação Solidária Adventista (ASA), braço local da ADRA, frequentemente promove ações de assistência social na comunidade onde está inserida.

“A ASA surgiu com o propósito de arrecadar mantimentos, roupas, remédios e fraldas para atender a comunidade local”, explica Karina Marquart, voluntária da entidade Ela explica que, enquanto a ASA age localmente, a ADRA age globalmente. “Embora estejam ligadas, as ações são diferentes”, pontua. A entidade está estruturada dentro da igreja opera por voluntariado.

Karina explica que, com a pandemia, a demanda cresceu devido à chegada de muitos refugiados venezuelanos na cidade e que foram buscar ajuda na igreja. “Até o momento já atendemos 82 famílias venezuelanas com cestas básicas, roupas, cobertores e roupas usadas”, conta. A maioria das doações vem da comunidade religiosa.

Os Vicentinos se juntaram na arrecadação, assim como na colocação dos refugiados no mercado de trabalho. “Trabalhamos unicamente para ajudar aos nossos semelhantes”, reforça Karina. As ações voluntárias da entidade começaram no Natal e por dois anos consecutivos foram um sucesso. Atualmente, também devido à pandemia, o voluntariado diminuiu o ritmo. “Temos ajudado algumas famílias, arrumando emprego de motorista, fazendo bolo em casa para vender. Tem algumas situações que estamos ajudando a colocar no mercado de trabalho”, finaliza.

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