Luiz está na roça. Ao seu lado, seu irmão, mais velho, e sua irmã, mais nova. Luiz tem aproximadamente cinco anos. É o tempo em que as crianças ainda acompanhavam os pais na tarefas rurais, para ajudar ou para estar por perto. Luiz levava consigo uma enxada. Seu irmão mais velho levava um cortador de grama. A irmã mais nova só caminhava.

O cortador de grama na mão de seu irmão era afiado e exigia cuidado. Um cabo de madeira e uma lâmina muito precisa, por isso mesmo era levado pelo mais velho. Porque era necessário que o portador fosse o mais responsável do grupo.

Os pais já vão se perdendo de vista na frente, a lavoura é grande, o trabalho é extenso e o dia é curto. As três crianças param para descansar um pouco quando a irmã pega o cortador e começa a brincar. Luiz apenas observa. A imã vira a ferramenta para cima e simula que vai pisar sobre a lâmina afiada.

Brinca uma, duas vezes. Na terceira vez solta o peso do corpo todo sobre aquele único ponto, e a física faz seu trabalho. O chinelo é imediatamente dividido em dois, assim como a sola de seu pé, que se abre em um profundo e sangrante corte. A irmã sente o peso do grave arrependimento que se abate sobre ela e manifesta sua dor com gritos.

Os dois irmãos agora se entreolham e olham para ela, o que se faz numa situação dessas? O irmão mais velho, passado o primeiro susto, sente a segunda onda de medo: ele era o responsável pelo cortador, como pôde deixar a peça na mão dela? Sabia que seria castigado por essa importante falha.

A irmã chora e grita de dor, no chão. Luiz, perplexo, olha para trás e vê os pais voltando, alertados pelos gritos. O mais velho está pálido de medo e remorso. Ele se abaixa, chama a atenção da menina, consegue fazer com que ela deixe de gritar por alguns segundos, e olhando em seus olhos, pergunta:

– Vamos dizer que foi o Luiz?

Luiz, ainda mais perplexo, treme de dor antecipada ao ver sua irmã, sabe-se lá por qual motivo, assentir com a cabeça. A decisão está tomada, foi o Luiz que machucou a irmã, por maldade.

A mãe não costuma perdoar criança que não se comporta e vai se aproximando com o olhar furioso. Se for picada de cobra ela ainda perdoa, mas se for machucado a borracha vai cantar. Quando chega aos três menores, já percebe o olhar de medo de Luiz, e é informada então sobre a sequência dos eventos.

O mais velho conta que Luiz tomou o cortador de sua mão e enganou a mais nova, dizendo que seria uma boa ideia pisar na lâmina. A irmã consente: foi isso mesmo que aconteceu, os fatos foram fielmente expostos.

Luiz já começa a apanhar ali mesmo, o que persiste ao longo de todo o caminho de volta para casa. Chegando lá ele descobre que aquele era só o aperitivo, agora é que vem a surra verdadeira, e não há o que se diga que convença a mãe do contrário.

Quando à noite, durante o jantar, Luiz volta a afirmar o que houve, a mãe muito seriamente questiona os outros dois, que dessa vez dizem a verdade, e recebem seu quinhão de educação à moda antiga.

Publicado na edição 1129 – 06/09/18

Três irmãos e uma história, O Popular do Paraná

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