Achegada dos primeiros imigrantes poloneses em Araucária é um dos capítulos mais importantes da história dos 136 anos da cidade. Um capítulo que ajudou a moldar a identidade cultural, social e humana do povo araucariense. Este ano, o aniversário da imigração polonesa em Araucária será ainda mais especial, pois são “150 anos”.

Isso mesmo! Um século e meio de uma história que continua sendo escrita todos os dias.

A BRASPOL de Araucária, que tem a missão de manter viva a memória desses imigrantes, promover a cultura e aproximar gerações, está organizando uma série de ações, projetos e eventos para marcar este ano histórico, que contará com o envolvimento de toda a comunidade.

E pensar que tudo começou em 1876, quando os primeiros imigrantes poloneses começaram a
chegar à região de Araucária, em um período em que a Polônia não existia como país, porque seu nome havia sido apagado dos mapas da Europa. O território polonês estava dividido e ocupado por três potências estrangeiras: a Prússia, o Império Russo e o Império Austro- Húngaro. O povo polonês vivia subjugado, sem soberania, sem autonomia política e sem direito de decidir seu próprio destino.

Essa dominação atingia o cotidiano, a dignidade e a identidade. A língua polonesa era proibida ou desencorajada nas escolas, a cultura era reprimida, os costumes eram vistos como indesejáveis e qualquer
manifestação de sentimento nacional era tratada como ameaça. Ser polonês, naquele contexto, era resistir silenciosamente.

A maior parte da população vivia no campo, em pequenas propriedades ou como trabalhadores submetidos a impostos abusivos, falta de terras, escassez de alimentos e poucas perspectivas de futuro.

Havia muita miséria. Gerações cresciam sem esperança de mudança, presas a um sistema que negava não apenas oportunidades, mas também identidade.

É nesse cenário que surgem os chamados aliciadores, homens enviados ou autorizados pelo Governo Brasileiro, num período em que o Brasil buscava intensamente mão de obra para ocupar territórios, desenvolver a agricultura e substituir o trabalho dos escravos, pós abolição. Esses agentes percorriam vilarejos, conversavam com famílias, frequentavam feiras e igrejas, apresentando uma promessa que soava quase inacreditável.

Falavam de um país distante, fértil e generoso. De terras próprias, trabalho recompensado, liberdade religiosa e a possibilidade de viver sem perseguição. Para um povo cansado de ser estrangeiro em sua própria terra, a ideia de recomeçar do outro lado do oceano parecia menos um risco e mais uma chance — talvez a única.

136 anos: Memórias e comemorações: Comunidade polonesa comemora 150 anos da imigração em Araucária
João e Sophia Gawlak na plantação de batata doce na Colônia Thomaz Coelho, em 1940

Mas a decisão significava abandonar tudo, a terra natal, os parentes, os túmulos dos antepassados, a língua falada nas ruas e as paisagens conhecidas desde a infância.

Muitos sabiam que a partida poderia ser definitiva. Ainda assim, partiram. Não movidos por ambição, mas por sobrevivência. Não em busca de riqueza, mas de dignidade. A imigração polonesa foi, antes de tudo, um ato de coragem e esperança. Um gesto profundo de fé no futuro, quando o presente já não oferecia alternativas.

“A história que começou em uma pátria sem mapa encontrou, em Araucária, um lugar para criar raízes. Nas primeiras décadas, os poloneses eram principalmente pequenos agricultores e lavradores, cultivando arroz, trigo, erva- -mate e hortaliças. Também atuavam no comércio local, educação e vida comunitária”, relata André Dreveniak, presidente da Braspol Araucária.

Segundo ele, quando os poloneses chegaram enfrentaram como principais desafios as terras de difícil acesso e transportes precários para levar suas produções até mercados maiores; adaptação ao clima, flora local e práticas agrícolas diferentes; além do isolamento social e das barreiras linguísticas. “Essas dificuldades marcavam os primeiros anos de assentamento e influenciaram a sustentabilidade econômica neste período inicial”, cita.

136 anos: Memórias e comemorações: Comunidade polonesa comemora 150 anos da imigração em Araucária
Casa da Família Marzuchowski no Thomaz Coelho, no ano de 1930

Dreveniak diz que as contribuições dos poloneses para o desenvolvimento de Araucária foram
importantíssimas, como exemplo o desenvolvimento da agricultura local e abastecimento de Curitiba, fortalecendo uma economia rural sustentável; a formação de uma identidade cultural plural no município, com tradições religiosas, festas, culinária e costumes próprios; estrutura social e comunitária, como escolas, capelas e redes de solidariedade comunitária.

“Os imigrantes ajudaram a moldar a cidade como ela é hoje, com suas crenças, tradições e seu jeito de ser: humildes, trabalhadores e com muita fé”, declara.

Edição Especial – Aniversário de Araucária: 136 anos.