O Terminal Rodoviário Municipal de Araucária, ou Terminal Central, completa 50 anos neste ano de 2026. Foi inaugurado na década de 70 (1976), exatamente no momento em que a cidade passava por uma revolução com a chegada da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar) e de várias outras indústrias. A população aumentou significativamente e, os ônibus que então atendiam a cidade já não eram suficientes. O prefeito da época, José Tadeu Saliba, percebeu que a cidade precisava de um ‘porto’ para seus passageiros.

Até a inauguração do terminal, o principal ponto de chegada e saída dos ônibus ficava na Praça Dr. Vicente Machado, bem em frente ao antigo Bar do Donato. Era ali, no coração da cidade, entre agências bancárias e o comércio, que a vida pulsava e os passageiros esperavam seus ônibus.

Com o crescimento urbano, a praça tornou-se pequena e o local de embarque e desembarque ficou caótico. Era urgente pensar em uma solução para esse problema. O novo terminal então foi construído, em um terreno que pertenceu à antiga Fábrica de Tecidos de Linho São Patrício (da família Charvet), estrategicamente posicionado às margens da Rodovia do Xisto (BR-476).

136 anos: Terminal Central passará por sua maior transformação desde a inauguração, em 1976
Na época, muitos acharam o terminal ‘grande demais’ para Araucária

Na época da inauguração, moradores achavam que o terminal era ‘grande demais’ para Araucária. Mal sabiam eles que, décadas depois, aquele espaço precisaria de várias reformas e ampliações para dar conta das milhares de pessoas que cruzam suas catracas diariamente.

COMO ERAM AS LINHAS

Nos primeiros tempos do transporte coletivo regular em Araucária — especialmente entre as décadas de 1930 e 1960 — o sistema era muito enxuto. Não existia ainda um sistema urbano estruturado como conhecemos hoje. O que havia eram poucas linhas radiais, ligando a área central de Araucária, algumas colônias e áreas rurais e, principalmente, a ligação com Curitiba e municípios vizinhos.

Os registros históricos e a própria história da empresa operadora indicam que, inicialmente, existiam apenas 2 a 4 linhas principais, que funcionavam como: Linhas centro–colônia (zonas rurais); Linhas centro–Curitiba; Serviços mistos (urbano/intermunicipal, sem separação clara). Essas linhas tinham poucos horários, operavam com frota reduzida. Muitas vezes seguiam rotas de estrada de chão e funcionavam mais como serviço de utilidade pública básica do que como sistema urbano planejado.

Foi somente com a industrialização mais intensa — especialmente a partir das décadas de 1970 e 1980, com a consolidação do polo industrial e da Repar — que o número de linhas começou a crescer de forma mais perceptível. Neste período, surgem bairros novos, a cidade se espalha e o transporte coletivo passa de ‘serviço pontual’ para estrutura urbana essencial. A partir daí, as poucas linhas iniciais se desdobram, criam-se variações por bairro e o sistema começa a assumir a ‘feição’ de rede urbana.

Hoje o Sistema de Transporte Coletivo Municipal conta com 47 linhas, entre urbanas e rurais. Já o Sistema Metropolitano possui 10 linhas, que conectam Araucária a Curitiba e a outras cidades da região metropolitana (Campo Largo, Contenda e Fazenda Rio Grande).

A chegada do Sistema de Integração

O sistema de integração foi o capítulo decisivo da história da mobilidade de Araucária: o momento em que o transporte coletivo deixa de ser apenas municipal e passa a ser, de fato, metropolitano e integrado, conectando o destino da cidade ao de Curitiba e da Região Metropolitana.

“O nascimento do sistema de integração acontece quando Araucária entra na lógica metropolitana. Sua implantação no Município não ocorreu em um único ato, mas em etapas, acompanhando a consolidação da Rede Integrada de Transporte (RIT) de Curitiba e os programas estaduais de integração metropolitana”, explica a Superintendência do Transporte Coletivo Municipal.

A linha Ligeirinho Araucária/Curitiba iniciou sua operação em 1996, ligando o Terminal Central à Praça Rui Barbosa. Assim então podemos dizer que a integração do sistema de transporte público, propriamente dita, ocorreu na década de 90, não apenas com essa linha, mas ela representa o marco dessa revolução.
Entre os pontos principais sobre a trajetória dessa linha, estão:

Mudanças Recentes: Atualmente, a linha opera como H02 – Araucária/Capão Raso e H20 – Angélica/Capão Raso. Em 2017, após forte pressão popular, os ligeirinhos voltaram a fazer parada no Terminal CIC, facilitando a vida de quem trabalha na Cidade Industrial.

PRIMEIRA GRANDE VIRADA

O marco estrutural mais importante ocorreu em meados da década de 2000, com o PIT – Programa de Integração do Transporte da Região Metropolitana de Curitiba, coordenado pelo Governo do Estado.

O PIT foi implantado por volta de 2005, previu a construção de terminais metropolitanos, incluindo o de Araucária, estruturou fisicamente a integração entre municípios da RMC e inseriu Araucária de forma mais sistemática na malha integrada.

Esse programa criou as condições físicas e operacionais para que o transporte de Araucária deixasse de ser isolado e passasse a dialogar com a rede metropolitana.

CONSOLIDAÇÃO OPERACIONAL

Após o PIT, a integração passou a ser operacionalizada e ampliada gradualmente, especialmente por meio da Integração com os terminais do CIC, do Capão Raso e conexões com o Pinheirinho e outros terminais da região sul de Curitiba.

Essas integrações se intensificaram ao longo da década de 2010, com períodos de ampliação, suspensão e retomada, conforme crises contratuais, mudanças institucionais (COMEC → AMEP) e revisões tarifárias e operacionais.

INTEGRAÇÃO MUNICIPAL INTERNA

Paralelamente, Araucária implantou seu próprio sistema de integração municipal, hoje conhecido como Sistema TRIAR, que inclui: Integração física entre linhas urbanas e Integração temporal (sem novo pagamento dentro de período definido).

O Sistema TRIAR foi criado em 1986, na administração do prefeito Rogério Kampa, portanto, neste ano está completando 40 anos. No início da operação do TRIAR não havia a integração do sistema, fato que ocorreu também na década de 90.

PASSAGEIROS DO INÍCIO E DE HOJE

“Saber esses números nos leva direto para as estatísticas de uma época onde tudo era contado na ponta do lápis. Se hoje Araucária é um fenômeno nacional com mais de 70 mil passageiros por dia, no início, a realidade era outra — mas o crescimento foi assustadoramente rápido.

Se voltarmos um pouco mais, para os anos 30 e 40, o serviço era quase familiar. Para se ter uma ideia, os primeiros contratos de transporte na cidade, como o do pioneiro Angelo Rigolino em 1936, previam o uso de apenas um carro jardineira com capacidade para 10 passageiros. Era uma linha exclusiva entre a estação ferroviária e a sede do município.

A explosão ocorreu nos anos 70, quando o terminal foi inaugurado em 1976, momento em que o cenário já era de ebulição. Com a chegada da Refinaria (Repar), a cidade viu sua população disparar. Embora não existam registros exatos de catraca de 1976 (pois o sistema era muito mais manual e descentralizado), historiadores locais relatam que o volume de passageiros já chegava aos milhares diariamente.

“E aí temos o contraste. O terminal foi construído para ser ‘grande demais’, mas em poucos anos, a frota da Empresa Araucária já operava com dezenas de veículos para dar conta da multidão que vinha trabalhar nas indústrias. Em 2010, para se ter uma ideia, o Sistema TRIAR transportava em torno de 40 mil usuários/dia. Atualmente, transporta mais de 70 mil usuários/dia, chegando a atingir em dias específicos o pico de 78 e 80 mil usuários/dia. O sistema metropolitano acaba transportando uma parcela do montante do Sistema TRIAR. Estima-se que atualmente transporta cerca de 40 mil usuários/dia”, ilustra a Superintendência.

O auge (1996 – 2015): Durante quase duas décadas, a linha H02 – Araucária/Curitiba operou conectando o Terminal Central de Araucária diretamente ao centro de Curitiba (Praça Rui Barbosa), passando por pontos estratégicos como as estações-tubo Kennedy e Vila Guaíra.

A “Desintegração” de 2015: Em fevereiro de 2015, devido a um impasse financeiro entre o Governo do Estado e a Prefeitura de Curitiba sobre o subsídio do transporte, a linha foi ‘encurtada’. Ela deixou de ir até o centro de Curitiba e passou a fazer o trajeto Araucária/Capão Raso, obrigando o passageiro a desembarcar no Terminal Capão Raso para seguir viagem.

Reforma arrojada: “presentão” para os usuários do Terminal Central

As obras em um terminal são como as reformas em nossa própria casa: elas acontecem porque a família cresceu ou porque o tempo exige uma renovação. No caso do Terminal Central de Araucária, a ‘casa’ precisa se transformar radicalmente para não ficar pequena demais para a força da cidade.

Com isso, está em andamento um ambicioso projeto de reforma e ampliação do Terminal Central, através de recursos oriundos do PAC e convênio com a AMEP (antiga COMEC). Neste projeto está prevista uma modernização dos espaços, inspirada no perfil do Terminal do Pinheirinho. A obra prevê a ampliação de plataformas de embarque e desembarque, a reestruturação da circulação viária no entorno, e a modernização de toda a estrutura concebida na década de 70.

“Se a estrutura atual fosse suficiente, a cidade não estaria investindo quase R$ 20 milhões para o aumento de plataformas de embarque. Isso vai permitir que as linhas do TRIAR e as metropolitanas (como o Ligeirinho e o Pinheirinho) tenham mais respiro e que as filas não se confundam tanto. A cobertura antiga será substituída por uma estrutura metálica moderna e muito mais alta, inspirada no Terminal do Pinheirinho, em Curitiba. Com isso, o ar circulará melhor, diminuindo aquele calor abafado dos dias de verão, e no sistema acústico será reduzido o barulho dos motores que ecoa no concreto. Não é só o que está em cima que muda, inclui ainda, a iluminação 100% em LED, deixando o ambiente muito mais seguro à noite e reforço no pavimento. O asfalto está sendo trocado por concreto de alta resistência nas áreas de parada, para evitar aqueles buracos e ondulações causados pelo peso dos ônibus”, ilustra.

136 anos: Reforma arrojada — “presentão” para os usuários do Terminal Central
O Terminal Central ficou ‘apertado’ para receber o número atual de passageiros

Paralelamente, está nos planos a construção do Terminal do Costeira, para oferecer novas opções de conexão à região Sul da cidade, como a integração via Terminal Tatuquara, que ajuda a desafogar o fluxo que antes obrigatoriamente passava pelo Pinheirinho. Além disso, uma parcela importante dos usuários que vão destino a Curitiba e outras cidades da região metropolitana não serão mais obrigados a virem até o Terminal Central, o que acaba por proporcionar um melhor atendimento aos passageiros.

Quanto às Linhas Metropolitanas, o desafio é outro. Como essas linhas são geridas pela AMEP (Estado) e pelo TRIAR (Prefeitura), o terminal funciona como um ‘casamento’ que precisa de ajustes constantes. A demanda para Curitiba continua altíssima, e a estrutura atual das plataformas metropolitanas muitas vezes fica saturada, o que exige um esforço enorme de logística para que os ônibus não fiquem ‘presos’ no pátio.

“Outra questão que sempre surgem nas rodas de conversa e nos gabinetes de planejamento urbano é se não seria melhor recomeçar do zero em outro lugar. A resposta é sim, e o planejamento urbano sempre flerta com essa ideia, mas a realidade de Araucária impôs uma solução diferente.

O Terminal Central está em uma localização privilegiada e estratégica, quase como um nó que amarra a cidade. Ele fica entre o centro histórico/comercial e a Rodovia do Xisto (BR-476). Tirar o terminal dali e levá-lo para muito longe poderia causar um ‘apagão’ no comércio central e dificultar a vida de quem trabalha nas indústrias próximas.

Por isso, em vez de uma mudança drástica de endereço para o terminal principal, a estratégia de Araucária tem sido a descentralização.

ESTRATÉGIA DAS “SATÉLITES”

Em vez de construir um único terminal gigantesco em outro local, a prefeitura optou por criar uma rede que desafoga o centro. O Terminal da Vila Angélica foi a primeira grande resposta a essa necessidade de expansão. Ele funciona como um pulmão auxiliar, filtrando o movimento de quem vai para a região norte e para Curitiba via Linha Verde.

“Existem estudos constantes sobre a criação de um terceiro terminal em regiões com grande densidade populacional, como a área do Costeira, citada anteriormente, ou do Capela Velha. A ideia é criar um ponto onde o passageiro possa se deslocar entre os bairros sem precisar passar pelo Centro”, explica a Superintendência.

Mudar o Terminal Central também exigiria um terreno imenso — que hoje é raro no centro — e um investimento bilionário em novas vias de acesso. “Além disso, a história nos mostra que o terminal segue as pessoas. Se o terminal saísse dali o comércio em torno da Rua Presidente Carlos Cavalcanti sofreria um golpe duríssimo. Portanto, a ideia de um terminal maior em outro local foi substituída pela visão de uma cidade com vários terminais interconectados”.

De acordo com o departamento do transporte, todos esses projetos não são apenas ideias no papel, eles já estão em vias de concretização!

Edição Especial – Aniversário de Araucária: 136 anos.