Pelo menos três cães comunitários que viviam há anos na Rua Ubirajara Savio Torres, no bairro Boqueirão, estão desaparecidos desde a madrugada do dia 28 de janeiro, uma quarta-feira.

Rajada, Caramelo e Pretinha eram castrados e microchipados e sempre viveram naquela região. Inclusive, cuidadores independentes construíram casinhas para eles no passeio daquela rua.

A vida dos cães, no entanto, mudou desde que o Centro de Distribuição do Mercado Livre foi inaugurado, no último trimestre do ano passado. Desde então, os cachorros passaram a circular também pelo estacionamento do CD, que fica aberto ao público.

A grande quantidade de pessoas que trabalha no Centro de Distribuição também fez com que os cachorros ganhassem novos amigos. Apesar de serem bem quistos pela maioria dos funcionários, a direção da empresa não estaria gostando da presença dos cães no estacionamento e armou uma operação para capturá-los na calada da noite do dia 28 de janeiro.

Um coordenador que trabalha no setor do Mercado Livre conhecido como Loss Prevention teria sido o executor da missão. Com o apoio de outras duas pessoas eles ludibriaram os cães e, numa ação que se assemelha a prática conhecida como higienização, os colocaram no baú de uma camionete Fiat Fiorino de cor branca. A verificação da placa do automóvel indica que ele foi locado da Localiza Rent a Car Ltda. Desde a madrugada daquela quarta-feira ninguém mais teve notícias de Rajada, Caramelo e Pretinha.

A artimanha para retirar os cães comunitários do local sem qualquer tipo de conversa prévia com órgãos ambientais e nem protetores independentes revoltou funcionários do Mercado Livre. Ao longo dos últimos dias vários deles entraram em contato com nossa redação denunciando o episódio e, inclusive, relatado temor pela vida de Rajada, Caramelo e Pretinha. “Num momento que se fala tanto em maus-tratos no Brasil, principalmente pelo que aconteceu com o Orelha, uma empresa gigante dessa fazer algo assim é inaceitável”, relata uma colaboradora. Ela pediu para não ser identificada temendo represálias.

Outro funcionário relatou que chegou a fazer uma denúncia pelo número 181 da Polícia Civil e aguarda que a Delegacia de Araucária ou a Delegacia de Meio Ambiente apure a conduta do Mercado Livre.

Nossa reportagem também entrou em contato com a vereadora pela cidade de Curitiba, Andressa Bianchessi, defensora da causa animal que atua também na Paraná Contra Maus-Tratos. Ela informou que o caso chegou até seu gabinete e que no início desta semana oficiou a Delegacia de Araucária pedindo providências. “Tivemos relatos consistentes que indicam que os animais foram capturados e colocados em um veículo modelo Fiat Fiorino dentro das instalações da empresa, tomando rumo ignorado. Os animais são castrados e microchipados, possuindo vínculo afetivo e de cuidado com a comunidade local. Em hipótese alguma isso poderia ter acontecido”, explicou.

O ofício encaminhado pela vereadora à autoridade policial ressalta que os animais atualmente são sujeitos dotados de direitos, notadamente os da personalidade. “Solicitamos a essa autoridade policial que tome as providências necessárias no sentido de proceder com investigações para apuração do crime previsto no Art. 32, §1°-A da Lei 9.605/98, bem como punição de todos os responsáveis, considerando que a proteção dos animais é fundamental e um mandamento constitucional”, conclui o ofício.

O que diz o Mercado Livre

O Popular entrou em contato com a assessoria de imprensa do Mercado Livre para entender se a captura dos cães comunitários foi um ato deliberado do coordenador do setor Loss Prevention ou se a ação foi orquestrada pela empresa.

Em nota, o Mercado Livre admitiu que capturou os cães e que agora trabalha para capturar outros dois que estariam causando perigo para operação do Centro de Distribuição. A empresa, no entanto, negou que os animais tenham sido vítimas de maus-tratos.

A empresa afirma que levou os animais para uma chácara situada em um município vizinho. Porém, se negou a informar qual seria essa cidade, bem como o endereço da chácara e sob os cuidados de quem os animais estariam. A nota diz ainda que o Mercado Livre estaria em contato com ONGs locais para acompanhar a situação. No entanto, não informou que ONGs seriam essas.

Abaixo a íntegra da nota do Mercado Livre

O Mercado Livre informa que, após apuração detalhada do ocorrido, não foi identificado qualquer indício de maus-tratos ou de práticas incompatíveis com o bem-estar dos cães comunitários que estavam no Centro de Distribuição de Araucárias (PR).

Os cães foram encaminhados para uma chácara situada em um município vizinho, em uma ação conduzida com o apoio de um bombeiro civil que atua na unidade. A decisão foi tomada exclusivamente por motivos de segurança, diante do risco potencial tanto para a operação quanto para os próprios animais, considerando a intensa circulação de veículos no estacionamento.

Conforme diretriz padrão para esses casos, o Mercado Livre já está em contato com ONGs locais para acompanhar a situação, avaliar eventuais necessidades adicionais de cuidado e definir, de forma conjunta, ações responsáveis que garantam o bem-estar contínuo destes e de outros cachorros que podem eventualmente estar nas redondezas do centro de distribuição, reforçando seu compromisso com a segurança e a atuação em parceria com a comunidade.