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A ameaça

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O casal está escondido dentro de casa. A mulher, colada à parede, se esgueira para tentar enxergar pela janela sem que possa ser vista lá de fora. O marido procura algo que possa ser usado como arma em caso de invasão, uma faca, uma lanterna pesada, uma chaleira, sei lá. Lá fora, uma caminhonete buzina, acelera forte, fazendo o motor gritar, e liga a luz alta em direção à residência.

Quando ouviu o ronco do motor, a esposa já sabia do que se tra­tava: uma briga com um vendedor desonesto que havia ocorrido dias antes. Foi o casal a uma loja de carros, o vendedor garantiu que estava tudo certo, pegou o adiantamento em dinheiro, “para segurar o negócio”, e nada de entregar o veículo. Numa segunda loja compraram o carro sem burocracia.

Mas novas idas à primeira revenda iniciaram um grande bate-boca com o primeiro vendedor, os clientes exigindo a devolução do valor pago a título de garantia de negócio e o sujeito se recusando a fazê-lo. Como geralmente acontece em casos assim, adjetivos pouco elogiosos foram trocados entre os dois lados da disputa, tendo talvez sido mencionadas até mesmo gerações anteriores, afinal nada nos torna mais sabedores do caráter de uma família do que um membro dela se recusando a pagar o que nos deve.

Pois o casal ainda ficou sabendo que o vendedor se metia também em outros negócios sujos, já tinha sido processado algumas vezes por estelionato e diziam por aí que até morte já tinha dado em negócio com ele, que o rapaz era acostumado a ameaçar aqueles que procuravam seus direitos.

Mas o casal decidiu insistir e forçar o vendedor até receber seu dinheiro novamente, o que aconteceu, deixando o negociante desgostoso e prometendo vingança, ou, nas palavras dele, justiça. O casal não acreditou totalmente, mas ficou no ar um certo receio de que os rumores a respeito do homem fossem reais – e que seu conceito de justiça não fosse exatamente o mesmo que o dos demais seres humanos.

Na sala, vendo TV, escutam o som da buzina e olham para fora, aterrorizados: a casa também era nova, nem telefone tinham ainda, agora é cada um por si, vamos ter que resolver isso de um jeito brutal, é matar ou morrer, esses e outros clichês passavam por suas cabeças enquanto o carro continuava a sequência de movimentos ameaçadores, as pernas da esposa tremem, ela acha que vai desmaiar, o marido está correndo pela casa já sem saber o que fazer ou a quem recorrer.

De repente, silêncio: ambos se preparam psicologicamente para uma explosão que geralmente sucede a calmaria, é o momento do ataque, mas o que escutam é uma risada do vizinho. Confusos, olham pela janela, sorrateiros, e enxergam esse vizinho, saindo para conversar com o dono da caminhonete, que errou de casa e agora manobra o veículo para estacionar no lugar certo, ambos rindo muito.

A esposa vomita.

 

 

Publicado na edição 1111 – 03/05/2018

A ameaça