O rapaz, no ônibus, se ajeita para que a moça possa se sentar no outro banco, a seu lado. Ela sorri para ele e agradece, que simpática, ele pensa, quer um chiclete?

Ela aceita, e à medida que a viagem segue a simpatia aumenta: trocam telefones e antes mesmo de descer do ônibus ele já está com saudades da moça. Parece recíproco – assim que salta já recebe uma mensagem em que ela diz que gostou do acaso daquele dia.

Porque assim é a sorte: a estranha que se senta ao seu lado pode se tornar o grande amor da sua vida. É este o pensamento que toma conta da cabeça do rapaz, e mesmo sem querer exagerar no amor à primeira vista ele já começa a escolher o nome dos futuros filhos.

Os dias seguem e o contato se torna frequente. O primeiro bom-dia e o último boa-noite do dia são para ela. Quando podem se ver novamente? A rotina dos dois não bate, difícil que ambos estejam livres no mesmo horário.

Até que ela diz que no fim de semana o seu amigo que toca vai se apresentar e ela gostaria de ir ver, e como o rapaz também é músico seria o evento ideal. Aí a gente toma um vinho depois, disse ela.

Os neurônios do rapaz sibilam na expectativa do sábado: tudo há de ser perfeito, estou sentindo que é a mulher da minha vida. Ainda é quarta, mas a roupa do dia já está reservada, nenhum risco é aceitável.

Até evita falar muito por mensagem até o sábado, para não dizer nenhuma besteira e acidentalmente perder a chance do encontro. Alega que está tudo muito corrido, mas que está tudo certo para ir com ela à apresentação.

Chega o dia e ele capricha. Se arruma com antecedência e, conforme orientação da moça, chega cedo ao local do evento: por ser amiga do músico, ganhou dois ingressos. Ela já está lá, esperando por ele.

Mas ele estranha. O local não é um teatro, nem uma casa de shows, aparentemente. Tem mais o aspecto comum de uma casa de bairro.

Uma senhora os recebe no portão com um sorriso, vamos entrando, quem bom que vieram, ele percebe que tem algo errado acontecendo, um show não é assim, com uma senhora simpática recebendo o público, que show estranho, que tipo de música o cara toca?

Dentro do recinto, menos de dez cadeiras dispostas em círculo, um banquinho e o violão mais ao lado, fora do círculo, eles são os últimos a entrar, a senhora anuncia que o quórum já se instalou e que o rapaz pode começar a tocar.

Por vinte minutos ele escuta as músicas ruins de autoria do cara do violão. Pelos 40 minutos posteriores ele escuta as incríveis vantagens de ser um vendedor de produtos de uma determinada marca, e como ele ficará rico se conseguir trazer mais vendedores para o grupo.

Estão juntos até hoje.

Publicado na edição 1133 – 04/10/18

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